Por Lêida Theophilo
Ser professor não é apenas uma escolha de carreira; é um estado de presença e uma vocação que se entranha na própria identidade. Olhando para trás, percebo que não tive como escapar desse destino bonito: vinda de uma família de professores, aos 12 anos eu já me via como “mestrinha”, ensinando e aprendendo com o mundo ao meu redor. Hoje, com a bagagem de uma vida inteira dedicada à sala de aula, tenho a plena certeza de que não saberia ser outra coisa na vida. E essa certeza é o maior orgulho que carrego sobre mim mesma.
Quem ensina com a alma sabe que o nosso trabalho não se mede nos cadernos que se enchem, mas nas vidas que se transformam. A sala de aula não é apenas um espaço físico delimitado por quatro paredes e uma lousa, mas um território vivo de encontros, afeto e memórias que resistem ao tempo.
Há um mistério bonito no processo de aprendizagem que a teoria, por si só, não dá conta de explicar: a criança só aprende verdadeiramente quando se sente acolhida e amada. O vínculo afetivo é o solo fértil onde a curiosidade lança raízes. Sem a segurança do afeto, o conhecimento se torna mera instrução mecânica; com ele, transforma-se em descoberta.
Por isso, o olhar pedagógico precisa ser, antes de tudo, atento e generoso — primordial para compreender e respeitar o ritmo e o tempo de cada discente. Carlos Drummond de Andrade traduziu essa postura com maestria ao escrever que “o importante não é estar aqui, ou ali, mas ser. E ser é uma ciência delicada, feita de pequenas grandes observações do cotidiano, dentro e fora da gente. Se não executamos estas observações, não chegamos a ser: apenas estamos e desaparecemos”.
Na docência, essa analogia ganha sua força máxima. O professor que apenas está na sala cumpre a burocracia do conteúdo e passa como uma sombra. Mas o professor que é pratica diariamente essa ciência delicada: observa o brilho nos olhos de quem compreendeu, o silêncio de quem traz uma dor de casa e o tempo único de cada criança. Ao olhar com amor para fora — para o aluno — e para dentro de si, ajustando sua didática e empatia, o mestre deixa de apenas “estar” no magistério para ser referência transformadora.
Essa dedicação em enxergar o outro como sujeito de sua própria história remonta aos grandes mestres da humanidade. Sócrates imortalizou sua atuação como professor não por ditar verdades, mas por caminhar ao lado de seus discípulos. Através da maiêutica — a arte de “fazer dar à luz” às ideias —, ele provou que o verdadeiro mestre não é aquele que deposita conhecimento em uma mente vazia, mas o que desperta a sabedoria que já habita no outro.
E é desse “ser” que brota a maior de todas as recompensas. Não há prêmio ou honraria que se compare ao momento em que, anos depois, encontramos um antigo aluno. Aquele abraço espontâneo, o sorriso de reconhecimento e a frase inesquecível: “Professora, eu aprendi a gostar dessa matéria pela forma como você a apresentava para nós”. Nesse instante, o tempo se suspende e temos a certeza de que valeu a pena cada entrega.
Em um mundo em constante transformação, a importância do mestre torna-se ainda mais evidente. Como bem sintetizou José de Souza Marques:
“Antigamente venciam os mais fortes; hoje vencem os mais preparados.”
Se alguém hoje se destaca em qualquer segmento da sociedade — seja na ciência, na arte, na tecnologia ou na liderança —, é porque, no início de tudo, existiu um bom professor que acreditou no seu potencial e ajudou a construir suas bases.
Ensinar é um ato de amor e de fé no futuro. É plantar sementes sob sombras que talvez não venhamos a desfrutar, mas com a plena convicção de que a colheita do conhecimento transformará o mundo.
Lêida Theophilo é mestranda em Ciências da Educação (Didática e Supervisão) pela Universidade do Minho (Portugal). Possui especialização em Filosofia, Artes e Cultura pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), além de licenciaturas em Letras (Português/Espanhol) e Filosofia. Com sólida experiência na educação básica e no ensino superior tanto no Brasil quanto em Portugal, atua principalmente no ensino de Língua Portuguesa, Redação, Filosofia e Educação Musical. É também escritora de literatura infanto-juvenil e pesquisadora na área de educação e metodologias de ensino.
Parabéns , Lêida! Também tenho orgulho de ser Professor!