Quem deveria governar? A cidade que não muda, o silêncio que anestesia e o furto da infância

Por Lêida Theophilo

Há uma sensação incômoda, quase melancólica, que nos atinge quando visitamos uma cidade — ou mesmo quando caminhamos pelas ruas da nossa própria terra — e percebemos que o tempo parece ter congelado. Enquanto o mundo avança, o cenário urbano permanece estático: o esqueleto daquele edifício inacabado, plantado na paisagem há mais de 30 anos, continua a ferir a estética e a dignidade do município. A praça pública, que deveria ser o coração pulsante do encontro e do lazer, segue esquecida, tratada como mero detalhe irrelevante.

O que mais espanta, contudo, não é apenas a inércia da pedra e do cimento; é a aparente invisibilidade dessa decadência para quem vive ali todos os dias. Por que o que nos fere o olhar passa despercebido pelos moradores?

Para responder a essa angústia, vale a pena revisitar a clássica pergunta de Platão em A República: Quem deveria governar?

Para o filósofo grego, a política não é balcão de favores, cabide de empregos ou trampolim para aventureiros, mas uma arte nobre que exige preparo, virtude e compromisso inegociável com o bem comum. Platão alertava que o maior castigo para os cidadãos que se recusam a participar da vida pública é serem governados por quem lhes é inferior. Mas o que acontece quando a cidade inteira se anestesia?

A resposta para esse torpor social reside, muitas vezes, nas engrenagens da política paternalista. Entra governo, sai governo, e a estrutura do atraso se mantém porque ela alimenta um sistema de dependência. O contrato temporário na prefeitura, a promessa de um favor, a falsa proteção da “amizade” com o vereador, o deputado ou o gestor de plantão funcionam como mordaças sutis. O cidadão perde a autonomia de cobrar porque foi induzido a se sentir “devendo” favores a quem tem a obrigação constitucional de servir. O silêncio, portanto, é comprado pelo medo ou pela conveniência, e a cidade continua estacionada no tempo.

E essa estagnação não se restringe ao asfalto esburacado ou aos prédios abandonados; ela adentra os portões das escolas e atinge o que há de mais sagrado e urgente em nossa sociedade: a Educação Infantil.

É doloroso constatar a falta de investimento em espaços essenciais para as crianças que ingressam na escola aos 4 anos de idade. Onde estão os parquinhos climatizados e estimulantes? Onde está a casinha de boneca — aquele espaço lúdico fundamental onde a criança dramatiza o mundo, exercita a empatia e aguça a imaginação? Ao enfiar crianças tão pequenas em salas estéreis e desprovidas de encanto, o poder público revela seu descaso com a base da formação humana. Como defendia o educador Loris Malaguzzi, criador da Abordagem Reggio Emilia, o espaço escolar precisa ser vivo e poético, pois “o que as crianças são e fazem depende de como pensamos que são e de como compreendemos o espaço”. Negar o lúdico é amputar o futuro.

O ciclo da apatia se completa quando os próprios responsáveis — anestesiados pelo mesmo sistema que tolera a praça abandonada — também não fazem questão de exigir melhores condições para seus filhos. Se aceitarmos migalhas na política, acabamos naturalizando que a infância seja tratada com escassez.

Enquanto continuarmos a achar normal que a cidade permaneça igualzinha à de vinte anos atrás, seguiremos assistindo ao espetáculo triste de gestões que governam para perpetuar privilégios, enquanto o futuro — representado pelas nossas crianças — é trancado em salas sem cor e sem imaginação. Afinal, uma cidade só começa a mudar de verdade no dia em que o cidadão decide que o seu voto, a sua voz e os direitos dos seus filhos não estão à venda.

Lêida Theophilo é mestranda em Ciências da Educação (Didática e Supervisão) pela Universidade do Minho (Portugal). Possui especialização em Filosofia, Artes e Cultura pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), além de licenciaturas em Letras (Português/Espanhol) e Filosofia. Com sólida experiência na educação básica e no ensino superior tanto no Brasil quanto em Portugal, atua principalmente no ensino de Língua Portuguesa, Redação, Filosofia e Educação Musical. É também escritora de literatura infanto-juvenil e pesquisadora na área de educação e metodologias de ensino.

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