A Poética da Matéria e a Arte do Fazer: O Artesanato Tocantinense como Identidade, Economia e Cidadania

Por Lêida Theophilo

Para os antigos gregos, a palavra poiêsis (de onde derivam “poesia” e “poética”) não significava apenas a criação de versos, mas o ato de trazer algo à existência que antes não existia — o fazer humano transformador. Quando revisitamos as estradas do Tocantins e nos deparamos com as mãos que esculpem a madeira, trançam a palha do buriti, moldam a cerâmica indígena ou lapidam a semente e o capim dourado, testemunhamos essa essência em seu estado mais visceral. Como bem apontava a filósofa Hannah Arendt ao analisar a condição do homo faber — o ser humano criador e fabricante —, é pelas mãos e pelo trabalho que transformamos a natureza instável em um mundo durável de coisas úteis e belas, imprimindo nossa marca na realidade e construindo a nossa humanidade.

A cultura não é um conceito abstrato confinado a gabinetes; ela é a própria “cultura do ser” — aquilo que cultiva a humanidade em nós. Quando o artesão transforma a fibra bruta em trama delicada, ele não apenas produz um objeto utilitário; ele exterioriza a sua ancestralidade, o seu território e o seu modo de habitar o tempo. No Tocantins, essa herança plural pulsa nas mãos de artistas que mantêm vivas a nossa identidade.

Minha relação profunda com essa riqueza vem de longe, mas ganhou contornos inesquecíveis em 2013, quando tive a honra de atuar como produtora de workshop da jornalista, cantora, produtora, artista do Tocantins e palestrante Mara Rita. Naquela jornada marcante, levamos aos municípios do estado a história da música brasileira — desde a chegada dos jesuítas, os cânticos indígenas e negros, até os movimentos dos festivais e os dias atuais —, em um projeto direcionado a professores de história, português, geografia e arte, além de produtores culturais e secretários municipais. Foi fantástico! Nessa imersão pelas estradas tocantinenses, pude conhecer de perto a grandiosidade de um artesanato até então inexplorado por muitos: a arte no fruto, as peças e semijoias feitas com a palha do buriti, as esculturas em madeira, o crochê, a cerâmica indígena e as sementes de coco babaçu.

Contudo, a beleza dessa criação artesanal esbarra hoje em uma contradição urgente. Enquanto o capim dourado e a palha do buriti já cruzaram o oceano e conquistaram vitrines na Europa — algo que testemunhei de perto ao comercializar essas peças durante meus estudos em Portugal —, o artesão local ainda caminha à margem de políticas públicas efetivas. Nos diálogos diretos com quem faz a arte acontecer, o grito é unânime: falta um lugar próprio, estruturado e acessível para expor e comercializar as peças, enquanto os poucos espaços existentes agonizam pelo descaso e pela falta de investimentos em manutenção e gestão. A atuação institucional por parte dos governos estadual e municipais ainda se mostra tímida e descontínua, reduzindo a cultura ao evento sazonal e ignorando que o fazer manual exige infraestrutura contínua para se transformar em verdadeira alavanca de desenvolvimento socioeconômico.

É exatamente nesse cruzamento entre a identidade cultural e a urgência econômica que se impõe a necessidade estruturante do cooperativismo. Criar cooperativas não é apenas unir forças para a produção e a comercialização; é instituir uma pedagogia da solidariedade e da emancipação. Quando o artesão se organiza coletivamente, ele deixa de ser vulnerável à invisibilidade do mercado isolado e passa a protagonizar sua própria história. O cooperativismo democratiza o saber, abre portas e atrai novas gerações para aprenderem os ofícios tradicionais, reduz custos, garante justa remuneração e fortalece a cadeia produtiva como um todo.

Fomentar o artesanato tocantinense por meio de políticas públicas consistentes e da organização cooperativa é, em última análise, um ato político e filosófico. É garantir que a nossa arte não seja apenas exportada como curiosidade exótica, mas que retorne em dignidade, renda e autonomia para quem a cria. Afinal, internacionalizar o nosso artesanato e valorizá-lo com dignidade na terra natal é reconhecer que o Tocantins fala ao mundo através da beleza de suas mãos.

Lêida Theophilo | Educadora, Escritora e Gestora Cultural

  • Formação: Mestranda em Ciências da Educação: Didática e Supervisão (Universidade do Minho – Portugal); Licenciada em Letras (Português/Espanhol) e Filosofia; Especialista em Filosofia.
  • Atuação Pedagógica: Mais de 20 anos de experiência no Ensino Fundamental, Médio e Superior no Brasil, além de experiência docente na Educação Musical e AEC em Portugal. Atualmente leciona em Palmas (TO).
  • Música, Cultura e Comunicação: Escritora de textos teatrais e de literatura infanto-juvenil (com lançamentos previstos), maestrina (formação de corais), instrumentista (piano, violão e flauta). Atua também como mestre de cerimônias — com participação destacada na FLIT (Feira Literária Internacional do Tocantins) — e organizadora de eventos culturais.

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