Não troque Jesus Cristo pelo seu candidato

A eleição do primeiro turno, realizada neste domingo, 4 de outubro, talvez tenha revelado algo que nós, cristãos, precisamos ter coragem de admitir: você sabe evangelizar. Sim. Você sabe falar. Você sabe argumentar. Você sabe convencer. Você sabe compartilhar uma mensagem. Talvez o problema nunca tenha sido a falta de capacidade para falar da sua fé.

Durante a campanha eleitoral, você estudou propostas, assistiu a debates, procurou informações, enviou vídeos, compartilhou textos e falou do seu candidato com pessoas que sequer haviam perguntado a sua opinião. Você procurou argumentos, enfrentou críticas, entrou em discussões e defendeu aquilo em que acreditava.

Alguns chegaram a discutir com familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho. Outros romperam relacionamentos, perderam amizades e transformaram grupos de família e de amigos em verdadeiros campos de batalha. Tudo isso porque acreditavam que aquela causa era importante.

Então precisamos fazer uma pergunta incômoda: Se você encontrou tanta disposição para defender um candidato, por que encontra tanta dificuldade para falar de Jesus Cristo? Talvez você diga: “Eu não sei evangelizar.” Mas a experiência dos últimos meses pode ter provado o contrário.

Você sabe falar quando acredita que a mensagem é importante. Você sabe procurar argumentos quando realmente quer defender alguma coisa. Você sabe iniciar uma conversa quando considera que aquilo precisa ser dito. Você sabe compartilhar vídeos, textos e informações quando está convencido de que alguém precisa ouvir.

Você sabe insistir. Você sabe defender. Você sabe argumentar. Você sabe evangelizar. A questão é: o que tem ocupado o centro da sua paixão? Porque existe um perigo quando a política deixa de ser uma dimensão da vida pública e passa a ocupar, dentro do coração do cristão, o espaço que pertence somente a Cristo.

O candidato passa. O mandato passa. A eleição passa. A promessa passa. O dinheiro passa. O poder passa. Os governos passam. Mas Jesus Cristo permanece. “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre”, nos lembra Hebreus 13:8.

Por isso, precisamos fazer uma autocrítica séria. É possível defender um candidato com mais entusiasmo do que defendemos o Evangelho. É possível conhecer mais profundamente um programa de governo do que conhecemos a Palavra de Deus. É possível acompanhar diariamente as redes sociais de um político e quase nunca abrir a Bíblia.

É possível saber tudo o que o nosso candidato falou em um debate e não conseguir explicar para alguém o que significa nascer de novo. É possível passar horas discutindo política e não conseguir passar dez minutos falando sobre Jesus.

E existe algo ainda mais grave. É possível transformar um candidato em uma espécie de salvador político. Quando isso acontece, precisamos parar e lembrar: Cristo não morreu na cruz para eleger ninguém. Cristo morreu na cruz para salvar pecadores.

O cristão pode ter posicionamento político. Pode votar, participar do debate público, defender ideias, cobrar governos e lutar por justiça. Isso faz parte da cidadania.

Mas existe uma fronteira que não podemos ultrapassar. Não podemos entregar à política aquilo que pertence a Cristo. Nenhum candidato merece a nossa adoração. Nenhum partido merece a nossa fé. Nenhum governo merece a nossa esperança absoluta.

Nenhuma promessa eleitoral pode ocupar o lugar da esperança que temos em Jesus. E aqui está outra questão que precisa ser enfrentada pela igreja: o que acontece quando alguém passa a defender um candidato não por convicção, mas por interesse?

Se alguém recebeu uma recompensa financeira, uma vantagem pessoal ou alguma promessa e, por causa disso, passou a tratar um candidato como se estivesse defendendo uma causa sagrada, precisamos perguntar se não estamos diante de uma inversão completa de valores.

Porque o Evangelho não pode ser vendido. A consciência cristã não pode ser negociada. A fé não pode ser transformada em moeda eleitoral. Jesus perguntou em Marcos 8:36: “Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

Essa pergunta continua atual. Depois da eleição, o que permanecerá? O vídeo que você compartilhou? A discussão que você teve no grupo da família? A briga com o amigo? A postagem que recebeu milhares de visualizações? O candidato que você defendeu? Ou permanecerá em você o compromisso com Cristo?
Talvez o resultado mais importante desta eleição não seja apenas quem ganhou ou quem perdeu. Talvez seja descobrir o quanto de energia, coragem, inteligência, criatividade e disposição nós somos capazes de mobilizar quando acreditamos em alguma coisa.

Você descobriu isso em si mesmo. Agora use essa disposição para algo infinitamente maior. Continue falando. Continue estudando. Continue lendo. Continue dialogando. Continue tendo coragem. Mas coloque essa mesma disposição a serviço do Evangelho.

Tenha vontade de falar de Jesus com a mesma disposição com que você falou do seu candidato. Tenha coragem de defender a fé com a mesma coragem com que você defendeu suas convicções políticas. Tenha disposição para conversar com pessoas que pensam diferente, sem transformar o outro em inimigo.

Tenha paciência para ouvir. Tenha sabedoria para responder. Tenha amor para testemunhar. Porque o Reino de Deus não é uma extensão de nenhum partido, nenhum governo e nenhum projeto eleitoral. “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.” (Romanos 14:17).

O seu candidato pode ter ganhado. Pode ter perdido. Pode ter sido eleito. Pode ter ficado pelo caminho. Mas a sua missão como cristão continua. A eleição terminou. A missão não. A campanha terminou. O Evangelho continua.

Os palanques serão desmontados. As bandeiras serão guardadas. As promessas serão cobradas. Os discursos serão esquecidos. Mas Jesus continua dizendo: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura”, em Marcos 16:15.

Portanto, não desperdice a coragem que você descobriu em si mesmo. Não deixe que ela morra junto com a eleição. E, sobretudo, não troque Jesus Cristo pelo seu candidato. Porque candidato algum merece a paixão que pertence a Cristo. Candidato algum pode ocupar o lugar do Salvador.

E nenhum projeto político pode substituir a missão da Igreja. Se você conseguiu falar tanto sobre o seu candidato, agora pergunte a si mesmo, se você tem falado sobre Jesus?

Talvez a eleição tenha revelado que você não precisava aprender a falar. Talvez você precisasse apenas descobrir por quem valia a pena falar.

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