A transformação da educação começa nos professores: metamorfose, crítica e criação na escola

Por: Prof.ª. Lêida Theophilo

Na última jornada pedagógica, nossa diretora nos lançou uma reflexão provocativa: o que faz uma escola ser inesquecível? Minha mente imediatamente começou a trabalhar. Há tempos venho me questionando sobre como eu, enquanto professora, gostaria que a escola fosse — desde a sua estrutura física até as metodologias de ensino. E, acima de tudo, pergunto-me se a verdadeira transformação da Educação realmente começa conosco, docentes.

A reflexão ganha força quando compreendemos que a escola é um espaço singular. Como bem aponta o educador português António Nóvoa, ela não é uma mera extensão da casa do aluno, tampouco se confunde com o restante da sociedade. É um ambiente próprio, com ritos e papéis específicos. Nela, o professor torna-se um símbolo de liberdade e de justiça, atuando não apenas como transmissor de conhecimento, mas como garantidor de um espaço de expressão onde cada estudante encontra o seu lugar no sistema educativo.

O mito da “desorbitância” e a ilusão do aprendizado em todo lugar

Vivemos um momento em que as tendências educacionais nos atropelam. Fala-se em Inteligência Artificial, personalização do ensino por algoritmos e em uma suposta “desorbitância da aprendizagem” — a ideia de que, se a informação está em todos os lugares, o espaço físico da escola perderia sua centralidade.

No entanto, informação dispersa não é conhecimento constituído. A escola continua sendo o lugar insubstituível do encontro com o outro e com a superdiversidade. É no ambiente escolar que a heterogeneidade das experiências humanas se cruza, exigindo de nós a criação de condições reais para ensinar e formar pessoas conscientes e livres.

Metamorfose: transformar a partir do que já existe

Para que a transformação aconteça, não precisamos refazer tudo do zero ou aderir cegamente a modismos tecnológicos. Como nos ensinou a inesquecível educadora Magda Soares, o processo mais potente na educação é o da metamorfose: transformar a partir do que já existe, honrando a história, a prática acumulada e os saberes docentes.

A Inteligência Artificial e as novas tecnologias são ferramentas poderosas, mas elas não leem o contexto social, não têm empatia e não constroem um olhar crítico sobre a realidade. Essa mediação exige conceber o ensino como uma prática capaz de transformar os alunos em consumidores críticos e produtores criativos de saberes. Trata-se de capacitar os sujeitos para interrogar o mundo, e não apenas para consumir passivamente o contínuo fluxo de dados da cultura digital.

Professores literários e o fechamento da jornada

Diante do futuro, precisamos resgatar o conceito de professores literários — docentes que dominam a linguagem, leem o mundo com sensibilidade, cultivam o repertório cultural e ensinam seus alunos a interpretar as contradições do cotidiano.

Em suma, uma escola se torna inesquecível quando não cede nem ao saudosismo imobilista, nem ao deslumbre tecnológico acrítico. A transformação da Educação passa inevitavelmente pelas mãos dos professores, mas exige que a sociedade e as políticas públicas garantam as condições objetivas para que esse ensino aconteça. É na mediação humana, na escuta e na metamorfose do saber que a escola cumpre sua vocação mais alta: formar mentes críticas, sensíveis, autoras de sua própria história e verdadeiramente livres.

Referências Bibliográficas

NÓVOA, António. Escolas e Professores: Protegendo a profissão, construindo a escola. Recife: Fundação Santillana, 2022. (Obra em que o autor aborda a escola como espaço próprio de liberdade, justiça e construção de pertencimento).

SOARES, Magda. Metamorfose da escola: a reconstrução das práticas educativas. In: LINGUAGEM e Letramento: caminhos e reflexões. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. (Fundamentação sobre a transformação gradual a partir da própria história e acervo pedagógico).

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Suporte conceitual para o ensino focado na formação do consumidor crítico e produtor criativo de saberes/autonomia).

Lêida Theophilo é mestranda em Ciências da Educação (Didática e Supervisão) pela Universidade do Minho (Portugal). Possui especialização em Filosofia, Artes e Cultura pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), além de licenciaturas em Letras (Português/Espanhol) e Filosofia. Com sólida experiência na educação básica e no ensino superior tanto no Brasil quanto em Portugal, atua principalmente no ensino de Língua Portuguesa, Redação, Filosofia e Educação Musical. É também escritora de literatura infanto-juvenil e pesquisadora na área de educação e metodologias de ensino.

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