Todos os dias, no mesmo horário, ele se senta no mesmo banco da praça. Chega devagar. Às vezes com uma bengala. Às vezes sem ela. Traz no rosto as marcas de quem já atravessou muitas tempestades e, nas mãos, aquele tremor discreto que o tempo costuma deixar como assinatura.
Ele se senta. Observa. As crianças correm. Os jovens passam olhando para o celular. As mães conversam. Os trabalhadores atravessam a praça com pressa. E ele permanece ali.
Não está esperando o ônibus. Não está esperando uma consulta. Talvez esteja esperando alguém. Talvez nem ele saiba mais quem. O curioso é que ninguém parece perceber. Ele está no meio de todos, mas parece estar sozinho em outro país. Um país chamado esquecimento.
Foi pensando em pessoas assim que uma frase de Mia Couto ganhou uma dimensão que ultrapassa a literatura: “Podemos morrer de alguém, sim, e podemos ainda mais morrer de ninguém.”
Morrer de alguém é uma dor conhecida. É morrer de saudade. De amor. De ausência. É carregar uma pessoa tão profundamente dentro do peito que sua falta parece ocupar o lugar onde antes existia a presença.
Mas morrer de ninguém é outra coisa. É mais silencioso. É quando ninguém espera. Ninguém pergunta. Ninguém liga. Ninguém sente falta. Ninguém conta sua história. E talvez seja essa uma das mortes mais cruéis que podemos impor a alguém que ainda está vivo. Porque algumas pessoas não morrem quando o coração para. Morrem quando deixam de ser importantes para alguém.
O Brasil está envelhecendo. Mas ainda precisamos aprender a envelhecer como sociedade. Aprender que o idoso não é apenas alguém que precisa de cuidados. Ele também é alguém que precisa de pertencimento. Não é apenas alguém que tem passado. É alguém que ainda tem presente. E, muitas vezes, ainda tem futuro.
O problema é que construímos uma cultura obcecada pela juventude. A propaganda vende juventude. O mercado valoriza produtividade. A tecnologia celebra velocidade. E, nessa corrida, quem envelhece parece ficar para trás.
Como se o tempo fosse uma doença. Como se rugas fossem defeitos. Como se cabelos brancos fossem sinais de fracasso. Como se aposentadoria significasse inutilidade. Como se depois de determinada idade a pessoa devesse diminuir o volume da própria existência.
É aí que aparece o idadismo. O preconceito contra alguém simplesmente porque envelheceu. E ele pode ser muito mais perverso do que imaginamos. Está na piada. Na impaciência. Na infantilização. Na decisão tomada sem consultar o idoso.
Na vaga de trabalho negada. Na família que fala sobre ele como se ele não estivesse na sala. Na sociedade que pergunta quanto ele custa, mas não pergunta quanto ele já construiu.
Idadismo mata. Mata devagar. Mata por dentro. Mata quando alguém começa a acreditar que já não tem utilidade. Mata quando a solidão se transforma em rotina. Mata quando a pessoa deixa de sonhar porque acredita que já não tem o direito de sonhar.
Talvez não tenhamos percebido, mas cada idoso é uma biblioteca. Ali estão histórias que nenhum algoritmo consegue reproduzir. Há guerras, amores, perdas, casamentos, separações, migrações, empregos, filhos, doenças, conquistas, fracassos. Há cidades que mudaram. Ruas que desapareceram. Costumes que morreram. Palavras que já não usamos.
Há uma memória coletiva inteira escondida atrás de um rosto enrugado. E nós passamos por essas bibliotecas todos os dias sem abrir um único livro. Talvez seja por isso que ouvir um idoso seja um ato de resistência.
Resistência contra o esquecimento. Contra a pressa. Contra a cultura do descartável. Contra a ideia absurda de que aquilo que envelheceu perdeu valor. Não perdeu. Ganhou história.
Há uma coisa que precisamos mudar urgentemente. Precisamos parar de homenagear apenas os mortos. Quantas vezes descobrimos o valor de alguém depois que já não podemos conversar com ela? Depois que o telefone não será mais atendido? Depois que a cadeira ficará vazia? Depois que a voz virou lembrança?
Aí aparecem as flores. Os discursos. As fotografias. As homenagens. As frases bonitas. Mas e antes? Onde estávamos quando aquela pessoa precisava de companhia? Onde estávamos quando queria conversar? Onde estávamos quando precisava apenas que alguém se sentasse ao seu lado?
Não queremos flores depois da morte. Queremos presença em vida. Queremos abraço antes da despedida. Queremos conversa antes da saudade. Queremos respeito antes do funeral. Queremos dignidade enquanto ainda existe respiração.
Precisamos repetir isso até que se torne cultura, que a idade não nos define. Ela conta uma parte da nossa história. Mas ninguém é apenas seus 60, 70, 80 ou 90 anos. Somos aquilo que vivemos. Aquilo que aprendemos. Aquilo que amamos. Aquilo que construímos. Aquilo que ainda sonhamos.
Um homem de 80 anos continua sendo um homem. Uma mulher de 75 continua sendo uma mulher. Eles não se transformam em crianças porque envelheceram. Não precisam que decidam tudo por eles. Precisam de respeito. Precisam de autonomia. Precisam de segurança. Precisam de saúde. Precisam de oportunidades. Precisam de afeto. E, acima de tudo, precisam continuar pertencendo.
Talvez amanhã aquele homem esteja novamente no banco. Talvez continue esperando alguém. Talvez não. Mas podemos fazer uma coisa diferente. Podemos sentar-nos ao lado dele. Perguntar seu nome. Perguntar sua história. Ouvir sem pressa.
Talvez descubramos que aquele homem aparentemente solitário já foi menino, namorado, marido, pai, trabalhador, amigo, sonhador. Talvez tenha enfrentado dificuldades que jamais imaginamos. Talvez tenha ajudado a construir a cidade onde hoje caminhamos. Talvez carregue uma história extraordinária.
E talvez tudo o que ele esteja precisando naquele momento seja de alguém que diga: – Eu vejo você. Porque é disso que se trata. Não apenas de prolongar a vida. Mas de fazer com que a vida continue tendo sentido.
Não queremos uma sociedade que simplesmente permita que os idosos sobrevivam.
Queremos uma sociedade que os ajude a viver. Viver com dignidade. Com autonomia. Com participação. Com afeto. Com respeito. Com propósito. Porque envelhecer não é desaparecer. É continuar escrevendo. E enquanto houver uma página em branco, ainda existe história para contar.
Por isso, precisamos escolher que tipo de sociedade queremos ser. Uma sociedade que abandona seus velhos? Ou uma sociedade que reconhece neles a memória viva de quem fomos e a possibilidade de quem ainda podemos ser? A escolha está diante de nós.
E talvez seja mais simples do que parece. Basta olhar. Basta ouvir. Basta ficar. Basta não deixar ninguém morrer de ninguém. Porque, no fim das contas, todos nós estamos caminhando para aquele banco da praça.
Uns chegarão antes. Outros depois. E quando chegar a nossa vez, talvez a única coisa que desejemos seja encontrar alguém disposto a sentar ao nosso lado.
Nós queremos promover a vida. Não apenas a vida que começa. Também a vida que amadurece. A vida que envelhece. A vida que carrega histórias. A vida que ainda pulsa.
Porque ninguém deveria envelhecer até se tornar invisível. E ninguém deveria morrer antes da hora apenas porque a sociedade deixou de enxergá-lo.
Prof. Gilberto Silva – Gurupi – TO