Amor é mais difícil que a morte

Há frases que não são apenas ditas. São sentidas como quem toca um abismo. “Amor é mais difícil que a morte” é uma delas. Poucas palavras, mas carregadas de um peso quase sagrado.


Talvez por isso o escritor nigeriano Ben Okri, em seu romance The Famished Road, tenha dito: “It is more difficult to love than to die.” Como se soubesse que a morte é um instante, mas o amor é uma travessia.

A morte encerra, o amor permanece. A morte acontece uma vez, o amor precisa ser vivido todos os dias. E o que é mais árduo, entregar o corpo à morte ou entregar o coração a alguém?

Okri sugere que morrer é simples diante do desafio de amar de verdade. Porque amar exige permanecer, mesmo quando tudo convida a fugir.

Antes dele, o místico medieval Meister Eckhart já havia mergulhado nesse mesmo rio. Comentando o Cântico dos Cânticos 8:6, Eckhart escreveu: “O amor é tão forte quanto a morte…A morte separa a alma do corpo, mas o amor separa todas as coisas da alma.”

E nessa frase ecoa uma sabedoria antiga, quase eterna. A de que o amor é uma força que não se contenta com o terreno. Ele invade o invisível, transborda para o eterno, toca o divino.

O Cântico dos Cânticos, texto poético e espiritual, já havia dito séculos antes: “O amor é forte como a morte, e o ciúme é cruel como o inferno.” Aqui o amor não é apenas sentimento; é poder, é força, é destino. É algo que atravessa o tempo e enfrenta o limite da morte, sem medo.

Mas o filósofo argentino Darío Sztajnszrajber, em nossa era de desilusões e incertezas, olha para o amor por outro ângulo. Em seu livro El amor es imposible, ele não diz que o amor é mais difícil que a morte, mas sugere que o amor é uma experiência que escapa, que nunca se completa, nunca se fecha.

Amar, para ele, é tocar o impossível. É desejar o outro sem jamais possuí-lo. Talvez seja isso o que o torna tão difícil quanto, ou até mais, do que morrer.

Em cada um desses olhares, seja o literário, o místico e o filosófico, há uma confissão comum: o amor é um território de risco. Quem ama, morre um pouco.

Morre para o orgulho, para a vaidade, para o controle. Morre para si, para nascer no outro. E essa morte diária, silenciosa e necessária, é o que transforma o amor em ato divino.

O amor verdadeiro não é refúgio. É cruz. Não é apenas afeto. É renúncia. Não é simples companhia. É entrega. Por isso, sim, o amor é mais difícil que a morte. Porque a morte é o fim de tudo que dói, mas o amor é escolher permanecer mesmo com a dor.

A morte encerra a história. O amor a reescreve. A morte cala a voz. O amor dá palavras ao silêncio. A morte nos leva. O amor nos eleva.

E quando olhamos para a cruz de Cristo, vemos o amor encarnado na sua forma mais pura e mais dolorosa. Naquele madeiro, o amor foi mais forte do que a morte. O Filho entregou-se, não porque precisasse morrer, mas porque só o amor é capaz de transformar a morte em ressurreição.

É nesse ponto que todos os pensadores, místicos e poetas se encontram, seja Okri, Eckhart, Sztajnszrajber, o autor do Cântico dos Cânticos. Todos falam do mesmo mistério. Do amor que ultrapassa o corpo, desafia o tempo, vence a morte e continua criando vida onde tudo parecia acabar.

Por isso, quem ama de verdade já começou a vencer a morte. Porque o amor é o exercício da eternidade dentro do tempo. É o céu se ensaiando na terra. É o divino respirando através do humano.

E talvez o segredo de Deus esteja justamente aí. Ensinar-nos que morrer é fácil, mas amar…ah, amar é o que realmente exige coragem.

Pr. Gilberto Silva – Gurupi-TO

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *