Deputado federal derrota a senadora Professora Dorinha por mais de 253 mil votos, depois de começar o segundo turno em desvantagem. Candidata apoiada pelo governador Wanderlei Barbosa perde mais de 77 mil votos em relação ao primeiro turno, enquanto Vicentinho amplia sua votação em quase 190 mil.

Da Redação – Gurupi News – 26 de outubro de 2026
O Tocantins viveu neste domingo, 25 de outubro, uma das maiores reviravoltas de sua história política. O deputado federal Vicentinho Júnior (PSDB), de 41 anos, foi eleito governador do Estado ao derrotar a senadora Professora Dorinha Seabra (União Brasil), numa disputa que começou com o favoritismo da candidata apoiada pelo governador Wanderlei Barbosa e terminou com uma vantagem expressiva para o candidato de oposição.
Com 100% das urnas apuradas, Vicentinho Júnior conquistou 562.083 votos, equivalentes a 64,52% dos votos válidos, enquanto Dorinha recebeu 309.076 votos, ou 35,48%. A diferença foi de 253.007 votos, conforme os resultados oficiais divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A dimensão da vitória ganha ainda mais relevância quando comparada aos números do primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Naquela ocasião, Dorinha havia conquistado 386.260 votos, contra 372.848 de Vicentinho, abrindo uma vantagem de 13.412 votos. Em apenas três semanas, o cenário foi completamente modificado. Vicentinho acrescentou 189.235 votos à sua votação, crescimento de aproximadamente 50,8%. Dorinha, por sua vez, perdeu 77.184 votos, uma redução de quase 20% em relação ao primeiro turno.
Uma virada de mais de 266 mil votos na diferença entre os candidatos
A recuperação eleitoral de Vicentinho Júnior foi muito superior à vantagem inicial da adversária. A diferença entre os candidatos saiu de 13.412 votos favoráveis a Dorinha para 253.007 votos favoráveis ao tucano, uma inversão de 266.419 votos no saldo da disputa.
No primeiro turno, Dorinha venceu em 82 dos 139 municípios tocantinenses, enquanto Vicentinho conquistou a maioria em 56, incluindo Porto Nacional, Paraíso do Tocantins e Araguaína. A entrada de novos apoios políticos e a mobilização do eleitorado no segundo turno contribuíram para alterar o resultado.
O dado mais surpreendente foi a queda absoluta da votação da senadora. Mesmo disputando o segundo turno sem os demais candidatos que participaram da primeira etapa, Dorinha não conseguiu preservar o número de votos que havia recebido anteriormente. Vicentinho, ao contrário, conseguiu ampliar expressivamente sua base eleitoral, incorporando apoios de lideranças que haviam disputado ou apoiado outras candidaturas no primeiro turno.
De preteridos nas articulações políticas a vencedores nas urnas
A vitória de Vicentinho Júnior e Amélio Cayres (MDB) tem um componente político que ultrapassa os números da apuração. Os dois chegaram à chapa depois de enfrentarem dificuldades para consolidar suas pretensões eleitorais dentro dos grupos políticos dos quais participavam.
Vicentinho Júnior chegou a ser apresentado como possível candidato ao Senado, mas perdeu espaço nas articulações que favoreceram o projeto de candidatura de Dorinha ao governo e a composição do grupo governista. Posteriormente, deixou o Progressistas, partido que havia presidido no Tocantins, e filiou-se ao PSDB, assumindo a candidatura ao Palácio Araguaia.
Amélio Cayres, presidente da Assembleia Legislativa, também alimentava o projeto de disputar o governo e era identificado como uma das alternativas de sucessão dentro da base de Wanderlei Barbosa. Entretanto, a opção política do governador foi apoiar a candidatura de Dorinha, aproximando-se do grupo liderado pela senadora e pelo senador Eduardo Gomes (PL).
O afastamento político entre Wanderlei e Amélio abriu caminho para uma nova composição. O presidente da Assembleia acabou integrando, como candidato a vice-governador, a chapa de Vicentinho Júnior. O resultado foi uma aliança que reuniu lideranças de diferentes regiões do Tocantins e conseguiu transformar divergências internas da antiga base governista em um projeto eleitoral vencedor.
O afastamento de Wanderlei Barbosa e os rearranjos do poder
A eleição também precisa ser compreendida à luz da instabilidade política vivida pelo Tocantins durante o governo de Wanderlei Barbosa. O governador enfrentou um afastamento judicial de 90 dias, seguido de sua reintegração ao cargo, episódio que provocou movimentações e reposicionamentos entre aliados, parlamentares e lideranças estaduais.
Nesse contexto, o fortalecimento da candidatura de Dorinha, apoiada por Wanderlei e pelo senador Eduardo Gomes, representou uma escolha estratégica da base governista, mas também produziu dissidências. Nos bastidores, setores políticos interpretaram a decisão como resultado de compromissos e acordos construídos durante a crise institucional. Entretanto, a existência de eventuais obrigações ou contrapartidas relacionadas à reintegração do governador não está demonstrada pelos dados eleitorais e deve ser tratada como interpretação política, não como fato comprovado.
O que se confirmou nas urnas foi que a candidatura apoiada pelo governador acabou derrotada por uma chapa formada por dois políticos que haviam perdido espaço nas articulações anteriores. A eleição transformou Vicentinho Júnior e Amélio Cayres, antes preteridos em seus respectivos projetos, nos futuros ocupantes dos dois principais cargos do Poder Executivo estadual.
Aos 41 anos, Vicentinho está entre os governadores mais jovens da história do Tocantins
Nascido em Goiânia, em 11 de abril de 1985, Vicente Alves de Oliveira Júnior construiu sua trajetória pessoal e política em Porto Nacional, município de origem de sua principal base eleitoral. Filho do ex-senador Vicentinho Alves, iniciou sua carreira parlamentar na Câmara dos Deputados, para a qual foi eleito em 2014 e reeleito em 2018 e 2022. Agora, aos 41 anos, chega ao Governo do Tocantins depois de três mandatos consecutivos como deputado federal.
Sua idade o coloca entre os mais jovens eleitos para o cargo no Estado, ao lado de Marcelo Miranda, que também tinha 41 anos quando venceu a eleição de 2002.
Amélio Cayres: da presidência da Assembleia à vice-governadoria

Com quase três décadas de atuação pública, o parlamentar foi prefeito de Esperantina por dois mandatos e deputado estadual por cinco legislaturas. Sua principal base política está localizada na região do Bico do Papagaio, no extremo norte do Tocantins.
Presidente da Assembleia Legislativa, Amélio terá agora a oportunidade de utilizar sua experiência parlamentar na administração estadual, ao lado de Vicentinho Júnior. Entretanto, a missão não será simples. A coligação de Dorinha elegeu a maioria dos deputados estaduais, o que exigirá do novo governo capacidade de negociação para construir uma base de sustentação legislativa.
Dos 24 deputados eleitos para a próxima legislatura, 19 integravam inicialmente o grupo de Dorinha e cinco estavam ligados à candidatura de Vicentinho. Parte dos parlamentares, porém, já havia migrado para o grupo vencedor durante o segundo turno.
A fala do governador eleito: “O maior levante popular da história do Tocantins”
Ao comemorar a vitória, Vicentinho Júnior classificou o resultado como “o maior levante popular da história do Tocantins” e agradeceu aos eleitores pela confiança depositada em sua candidatura. Em seu discurso, sinalizou que pretende superar os conflitos da campanha e estabelecer uma relação de diálogo com adversários e aliados.
“Não quero mais saber quem votou no Vicentinho, quem deixou de votar. Tá tudo certo. Agora é hora de planejar um lindo governo, um próspero governo, um respeitoso governo.”
O governador eleito também defendeu o fim dos ataques pessoais e das agressões políticas, destacando a necessidade de respeito entre pessoas que pensam de maneira diferente.
Ao comentar a futura administração, afirmou que a saúde pública será sua primeira prioridade: “A nossa saúde é prioridade número um. É começar o governo e começar a tratar a saúde de imediato.” Vicentinho também mencionou inovação, tecnologia e melhorias nos serviços públicos como compromissos de sua gestão.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Eleitores aptos | 1.180.466 |
| Comparecimento | 953.385 |
| Votos válidos | 871.159 |
| Votos brancos | 20.323 |
| Votos nulos | 61.903 |
| Abstenções | 227.081 |
| Percentual de abstenção | 19,24% |
A difícil missão de governar o Tocantins

A expressiva votação de Vicentinho Júnior lhe assegura legitimidade eleitoral, mas não elimina os desafios que encontrará ao assumir o Palácio Araguaia.
Entre as prioridades estão a recuperação da qualidade dos serviços de saúde, a melhoria da infraestrutura rodoviária, a valorização dos servidores públicos, o fortalecimento da educação, o desenvolvimento econômico e a ampliação das oportunidades de emprego e renda.
Outro desafio será administrar as relações com os prefeitos dos 139 municípios tocantinenses, muitos dos quais apoiaram a candidatura derrotada de Dorinha, além de construir uma relação institucional com a Assembleia Legislativa.
A eleição também redesenha a correlação de forças entre as principais lideranças do Estado. O senador Eduardo Gomes foi reeleito, enquanto Alexandre Guimarães, aliado de Vicentinho, conquistou a outra vaga ao Senado. A senadora Dorinha, apesar da derrota ao governo, permanece com mandato no Congresso Nacional.
Vicentinho e Amélio terão ainda a responsabilidade de demonstrar que a aliança construída durante a campanha poderá se transformar em uma parceria administrativa consistente. O próprio vice-governador eleito reconheceu a dimensão dessa responsabilidade ao afirmar que a verdadeira vitória somente poderá ser medida ao final dos quatro anos, quando a população avaliar se os compromissos assumidos foram cumpridos.
Das articulações frustradas ao Palácio Araguaia

A eleição de 2026 deixa uma lição sobre a dinâmica do poder no Tocantins: alianças consideradas consolidadas podem ser desfeitas, projetos políticos podem mudar de direção e o resultado das urnas nem sempre acompanha as expectativas construídas pelos grupos dominantes.
Vicentinho Júnior e Amélio Cayres, que encontraram obstáculos em seus projetos dentro das articulações políticas anteriores, terminaram a disputa eleitos governador e vice-governador. Dorinha, que chegou ao segundo turno com a vantagem do primeiro e o apoio do governador Wanderlei Barbosa, terminou com uma votação inferior àquela conquistada três semanas antes.
A chapa vencedora assumirá o comando do Estado em janeiro de 2027, com o compromisso de governar uma população que, mais do que acompanhar os rearranjos políticos, espera resultados concretos.
A virada eleitoral já está registrada na história do Tocantins. A partir de agora, o desafio de Vicentinho Júnior e Amélio Cayres será transformar a vitória nas urnas em conquistas para a população.