Memórias apagadas: O descaso com a educação no Tocantins e a força de um projeto que insiste em resistir

Por Lêida Theophilo

Após entrar na reserva da Aeronáutica em 1984, meu pai nos proporcionou uma experiência fantástica: conhecer Tocantínia e o trabalho das missionárias pioneiras da Convenção Batista Brasileira, Beatriz Silva e Margarida Gonçalves. Foram dias tão marcantes que até hoje guardo com carinho a lembrança de andar de perua com a missionária Margarida ao volante. Jamais esquecerei! Anos depois, nossos caminhos se cruzaram novamente na FLIT, onde tive a honra de ser a Mestre de Cerimônias e apresentar o livro escrito por ela. Abraçamo-nos comovidas pelas lembranças. Era tremendo. Naquela época, as missionárias nos apresentaram o Colégio Batista de Tocantínia. Era espetacular: cores vibrantes, salas aconchegantes, um auditório com piano e um belo jardim.

Quarenta e dois anos se passaram. Recentemente, em meio a uma campanha política, retornei a Tocantínia e pedi para visitar o Colégio Batista, na esperança de reativar minhas memórias afetivas. Qual não foi a minha surpresa — e profunda decepção — ao ver que o colégio já não exibe mais a grandiosidade de outrora. Cores desbotadas, ausência de muros e de flores, dando lugar apenas ao barulho de pedreiros construindo uma quadra e uma nova escola nas dependências do prédio.

Essa cena me levou a uma reflexão inevitável: os dirigentes do nosso estado nunca tiveram um projeto sério voltado para a educação das crianças, adolescentes e jovens de Tocantínia e região. Desde a criação do estado, o colégio nunca passou por uma reforma digna. As paredes desbotadas são a prova cabal de que a prioridade deles não é o povo, mas sim a manutenção de projetos de poder. Parecem orgulhosos demais para entender que a educação é a única ferramenta capaz de transformar a sua gente, ou — o que é ainda pior — fazem isso de propósito, mantendo os cidadãos sem oportunidades, alienados e dependentes de um sistema.

E não podemos ignorar quem são os responsáveis por esse cenário: são os mesmos que está há anos no jogo político, sempre se reelegendo e perpetuando a política tocantinense num modelo dinástico, transmitido de pais para filhos, filhas, irmãos, esposas e cunhados. O poder segue concentrado em um grupo fechado que joga a mesma regra desde a fundação do estado.

Em 2013, estive na cidade de Lizarda e, como sempre faço questão de conferir de perto, visitei uma escola local. As crianças amontoadas em uma sala apertada, dividindo o mesmo assentam em carteiras de madeira antigas, sem qualquer refrigeração. Investir em um espaço físico adequado, com parquinho e salas climatizadas, parece ser um gasto tão impensável para os nossos governantes que nos obriga a questionar: o que fazem os deputados do nosso estado em seu trabalho na Assembleia Legislativa? Investir em educação, com certeza, não é a prioridade. Como será que estão as demais escolas? Será que enfrentam a mesma situação de abandono do Colégio Batista de Tocantínia?

Evidentemente, faço aqui uma ressalva quanto à responsabilidade que coube à Convenção Batista Brasileira de dar continuidade ao legado das missionárias pioneiras — mulheres que dedicaram suas vidas para que, por meio da educação e da evangelização, os alunos pudessem adquirir princípios e valores capazes de elevá-los tanto no plano natural quanto no espiritual.

Fica o apelo para que, no próximo ano, os sindicatos e os profissionais da educação intensifiquem a fiscalização sobre as verbas destinadas ao ensino. É preciso verificar de perto as condições reais das escolas municipais e estaduais e cobrar relatórios transparentes que provem se o governo eleito está, de fato, mudando a vida da próxima geração com dignidade. A educação não pode continuar a ser refém de quem só enxerga votos onde deveria enxergar o futuro do nosso estado.

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