Por Gilberto Correia da Silva
Há artistas que passam pela música. Outros fazem da música o caminho por onde passam a vida, constroem amizades, contam histórias e deixam marcas na memória de um povo. Chico Chokolate pertence a essa segunda categoria. Sua trajetória é feita de acordes, palcos, encontros, persistência e, sobretudo, amor pela arte.
Francisco de Sousa Pereira, o nosso Chico Chokolate, nasceu em Colmeia, em 1964, e encontrou na música, ainda adolescente, uma companheira para toda a vida. Em 1979, aos 15 anos, começou tocando triângulo em um trio de forró pé de serra. Quem poderia imaginar que aquele jovem, com um instrumento tão simples nas mãos e tantos sonhos na cabeça, construiria uma história que atravessaria décadas e se tornaria parte da identidade musical tocantinense?
A música, às vezes, começa assim. Sem grandes palcos, sem holofotes, sem contratos milionários. Começa no chão da cidade, no salão de baile, na festa popular, na reunião de amigos. Começa com a vontade de fazer o som acontecer. E Chico fez acontecer.
Vieram as bandas, as viagens, os bailes e as experiências por diferentes cidades. Passaram por sua história a banda de Antista do Acordeon, a Som da Terra, em Gurupi, e outros grupos que marcaram sua caminhada por Goiás e Mato Grosso. Cada estrada trouxe aprendizado. Cada apresentação acrescentou uma nota à composição de sua própria existência.
E foi em Gurupi que Chico fincou raízes, transformando a cidade em território de sua música, de suas amizades e de sua contribuição cultural. Aqui, seu nome deixou de ser apenas o de um cantor que sobe ao palco. Tornou-se o de um artista que faz parte da paisagem afetiva de uma comunidade.
Porque há uma diferença entre morar em uma cidade e pertencer a ela. Pertencer é participar de sua história, acompanhar suas mudanças, valorizar seus talentos e ajudar a construir sua identidade. Chico Chokolate fez isso com a música, com o jornalismo e com sua atuação cultural.
Um talento que ganhou o Brasil sem perder suas raízes
O talento de Chico também ultrapassou as fronteiras do Tocantins. Sua história registra experiências em diferentes estados, participação em festivais, premiações como intérprete e contato com nomes conhecidos da música brasileira, entre eles Gilberto Gil, Cauby Peixoto e Tetê Espíndola.
Um dos capítulos mais expressivos dessa caminhada foi a conquista da segunda edição do festival CANTOCANTINS, em 1997, interpretando Pequi Blues, composição de Reneu Berni. A música, que une a referência regional do pequi à linguagem universal do blues, traduz simbolicamente o que Chico representa, um artista capaz de dialogar com diferentes sonoridades sem abandonar a identidade de sua terra.

Em 1999, veio o primeiro CD solo, Roda Magia. Em 2013, lançou Versátil, título que parece definir não apenas um disco, mas sua própria personalidade artística. Sua musicalidade passeia pela MPB, pelo samba, pelo forró, pelo blues e pelo reggae, demonstrando que a boa música não precisa morar em uma única prateleira.
E há algo importante nessa história, que é o reconhecimento nacional nem sempre chega na forma de grandes contratos, discos de ouro ou premiações transmitidas pela televisão. Também se manifesta quando uma emissora pública nacional, como a Rádio Senado, abre espaço para apresentar a obra de um artista regional ao país. Em julho de 2025, Chico foi destaque no programa Som Brasilis, que apresentou sua trajetória e canções como Me Queira, Em Tempo e Pequi Blues Ballad.
Tocantins – Rádio Senado
É uma conquista significativa. A obra de Chico entrou na programação de um veículo de alcance nacional, levando um pouco da produção musical tocantinense a ouvintes de outras partes do Brasil. Mas o tamanho de um artista não se mede somente pela distância que sua voz alcança. Mede-se também pela capacidade de permanecer, de criar vínculos, de inspirar outros músicos e de ajudar uma cultura a reconhecer a si mesma.
O jornalista que também canta a história de sua gente
Chico Chokolate não se limitou aos palcos. Formou-se em Jornalismo pelo Centro Universitário UnirG, atuou na área cultural e assumiu responsabilidades públicas, entre elas a Secretaria Municipal de Cultura de Gurupi, de 2009 a 2012, além da presidência do Conselho Municipal de Políticas Culturais. Também passou a atuar na Rádio UnirG FM, aproximando comunicação, música e comunidade.
Essa combinação de artista e jornalista tem um significado especial. O músico interpreta sentimentos. O jornalista registra fatos. Um trabalha com a melodia, o outro com a palavra. Quando essas duas vocações se encontram na mesma pessoa, abre-se a possibilidade de compreender melhor a sociedade, valorizar os talentos locais e preservar a memória de uma região.
Em um estado cuja identidade cultural continua sendo construída e divulgada, gente como Chico tem um papel relevante. Não basta esperar que os grandes centros reconheçam a nossa produção. É necessário produzir, registrar, divulgar, abrir espaços e acreditar que a arte feita aqui também merece ser ouvida em qualquer lugar.

Chico é coisa nossa. É coisa do Tocantins!
Em outubro de 2026, a celebração de sua trajetória ganhou novo capítulo com o projeto Som na Praça, realizado no Centro Cultural Mauro Cunha, em Gurupi. O encontro reuniu artistas e parceiros como Dorivã – o Passarim do Jalapão -, João Bolo, Paulo Albuquerque e o sanfoneiro Manoel Cerqueira, numa festa que também celebrou décadas de amizade e convivência musical.
Há beleza nisso. Um artista que chega a uma data tão expressiva cercado de companheiros de estrada não celebra apenas o próprio sucesso. Celebra uma história coletiva, feita de parcerias, canções compartilhadas, palcos divididos e sonhos que resistiram ao tempo. E é justamente aí que esta homenagem encontra seu sentido mais profundo.
Chico Chokolate é coisa nossa
É de Colmeia, onde tudo começou. É de Gurupi, cidade que o acolheu e onde sua presença se tornou parte da vida cultural. É do Tocantins, que encontra em sua música uma expressão de sua diversidade, de sua criatividade e de sua capacidade de produzir arte com identidade própria.
Quando Chico canta, não ouvimos apenas a voz de Francisco de Sousa Pereira. Ouvimos também um pouco das estradas percorridas, das cidades que o receberam, das amizades construídas e das experiências de uma geração que ajudou a fazer a música acontecer muito antes de a internet transformar a divulgação artística.
Ouvimos o Tocantins que trabalha, cria, inventa e insiste. O Tocantins que não quer ser conhecido somente por suas paisagens extraordinárias, mas também por seus compositores, intérpretes, poetas, jornalistas e artistas.
Por isso, celebrar Chico é também celebrar a cultura tocantinense. É reconhecer que o patrimônio de um povo não está apenas nos monumentos, os rios e nas serras. Está igualmente nas canções que atravessam gerações, nos artistas que permanecem e nas histórias que merecem ser contadas.
Quarenta e cinco anos de música, como propõe esta homenagem, já seriam motivo suficiente para aplausos. Sua trajetória, iniciada em 1979, permite celebrar mais de quatro décadas de dedicação à arte – e, conforme o marco adotado nas comemorações recentes, 45 anos de caminhada musical. Mais do que discutir a contagem, importa reconhecer a dimensão de uma vida dedicada à música.
Que venham novos palcos, novas composições, novos encontros e novos motivos para cantar. Que as novas gerações conheçam sua história e compreendam que a cultura não se constrói de um dia para o outro. Ela precisa de gente que insista, que acredite e que continue fazendo, mesmo quando o aplauso demora a chegar.
Parabéns, Chico Chokolate. Que sua música continue atravessando fronteiras, emocionando pessoas e levando o nome do nosso estado cada vez mais longe. Porque alguns artistas representam a si mesmos. Outros representam uma cidade, uma história, uma gente inteira.
Chico Chokolate é assim. Talento que vem do povo, música que nasce da estrada e orgulho que tem endereço certo. Chico é coisa nossa. Chico é coisa do Tocantins!
Gilberto Correia da Silva, professor aposentado, jornalista, escritor e presidente da Apug-Ssind