Até quando os trabalhadores vão fortalecer quem ameaça seus direitos e enfraquecer quem luta para defendê-los?
Muitos trabalhadores ainda não compreendem a função de um sindicato. Historicamente, a defesa dos direitos trabalhistas está associada às lutas da esquerda, não necessariamente por vinculação partidária, mas porque a organização coletiva, o enfrentamento das desigualdades e a defesa dos trabalhadores sempre estiveram no centro dessas lutas.
Há uma contradição que precisa ser enfrentada. Os patrões se organizam em sindicatos patronais para defender seus interesses econômicos e políticos. Ninguém estranha empresários unidos para proteger seus negócios e influenciar decisões. Por que, então, os trabalhadores são tantas vezes criticados quando se organizam para defender salários, carreiras, condições de trabalho e direitos conquistados? O sindicalismo não é um privilégio. É um instrumento de resistência diante de relações de poder desiguais entre capital e trabalho.
No ensino superior, entidades como o ANDES-SN e os sindicatos estaduais e municipais cumprem esse papel. Em Gurupi, a APUG-SSind representa um espaço fundamental de organização e defesa dos docentes da UnirG. Isso não significa que suas direções sejam infalíveis ou estejam acima de críticas. Significa que precisam ser cobradas, fiscalizadas e fortalecidas pela participação da própria categoria. O que não faz sentido é enfraquecer o instrumento de defesa coletiva e depois reclamar quando os direitos começam a desaparecer.
Sindicato não é partido político
Outra estratégia recorrente é confundir atividade sindical com política partidária, como se toda mobilização por direitos escondesse interesses eleitorais. Sindicato e partido são instituições diferentes. A atividade sindical é política porque envolve direitos, relações de poder, decisões administrativas e condições de trabalho. Isso não obriga uma entidade a se subordinar a partidos ou governos.
Um sindicato classista pode ser autônomo, independente e crítico diante de qualquer gestão, independentemente de sua orientação ideológica. Pode também manter relações com centrais e confederações sem abrir mão de sua autonomia.
É legítimo discordar da direção sindical, questionar suas estratégias e exigir transparência. O que não é legítimo do ponto de vista da consciência coletiva é usar divergências ou rótulos ideológicos para desqualificar toda iniciativa de mobilização. A pergunta não deveria ser de que lado ideológico está o sindicato, mas de que lado estão os interesses que ele defende.
O paradoxo dos professores da UnirG
É preocupante quando parte dos docentes demonstra mais disposição para enaltecer o empregador do que para fortalecer a própria representação sindical. Há quem defenda gestores mesmo diante de decisões que ameaçam direitos, enquanto desconfia daqueles que tentam preservá-los.
Reconhecer os méritos de uma administração não significa concordar com todas as suas decisões. O diálogo é necessário, mas não pode ser confundido com submissão; a cordialidade institucional não pode custar o silêncio da categoria. O problema começa quando o trabalhador passa a defender incondicionalmente quem ocupa o poder, mas trata como adversário quem cobra, reivindica e organiza a resistência.
Direitos trabalhistas não são presentes de gestores benevolentes. São resultados de leis, negociações, mobilizações e lutas históricas. E sua existência formal não garante, por si só, sua efetividade. O direito que não é defendido pode continuar escrito no papel enquanto perde força na realidade.
A omissão também tem consequências
Muitos trabalhadores acompanham as discussões de longe, criticam as iniciativas, cobram resultados, mas não comparecem às assembleias, não participam das mobilizações e não ajudam a construir alternativas. Só despertam quando a água bate no pescoço, quando a ameaça se torna concreta e o prejuízo está prestes a chegar à porta. Essa postura é um presente para quem deseja negociar com uma categoria desmobilizada.
Não se constrói um sindicato forte com uma categoria ausente. Não se pode exigir que um pequeno grupo enfrente estruturas poderosas enquanto a maioria permanece na zona de conforto. E não se pode responsabilizar exclusivamente a direção sindical pela fragilidade de uma luta da qual os próprios trabalhadores se recusam a participar.
O sindicato não substitui a categoria. Sua força depende da participação, da unidade possível entre diferentes opiniões e da disposição coletiva para defender interesses comuns. A ausência dos trabalhadores não paralisa as decisões do poder. Apenas diminui a capacidade de influenciá-las.
Consciência de classe não é submissão ideológica
Ter consciência de classe não significa concordar com tudo o que um sindicato faz, pensar de maneira uniforme ou abrir mão da liberdade individual. Significa compreender que existem interesses coletivos que ultrapassam as conveniências pessoais. Significa perceber que uma conquista coletiva beneficia até quem não participou da luta — assim como a perda de um direito pode atingir justamente quem criticou aqueles que tentaram preservá-lo.
O trabalhador não precisa ser inimigo do empregador. Mas também não deve confundir diálogo com submissão, reconhecimento com silêncio ou gratidão com renúncia à autonomia crítica. Na UnirG, defender a carreira docente, a valorização profissional e as condições dignas de trabalho também significa defender a qualidade do ensino superior e a responsabilidade social da instituição. Fortalecer a APUG-SSind e participar das discussões do ANDES-SN não é fazer um favor aos dirigentes. É assumir responsabilidade pelos rumos da própria categoria.
O sindicalismo como trincheira de resistência
Os direitos sociais e trabalhistas não estão imunes a retrocessos. Quando a representação coletiva perde força, o trabalhador fica mais vulnerável diante de interesses econômicos e decisões administrativas ou políticas.
O sindicalismo não é a única ferramenta de defesa, mas continua sendo uma trincheira fundamental. Quando os trabalhadores abandonam seus espaços de organização, os conflitos não desaparecem. As decisões continuam sendo tomadas, as prioridades continuam sendo estabelecidas e os interesses continuam sendo defendidos, só que com menor participação de quem será diretamente afetado. A procrastinação sindical tem um preço. O que poderia ser enfrentado preventivamente pode se transformar em perda concreta. E recuperar amanhã um direito negligenciado hoje pode exigir muito mais esforço, mobilização e sacrifício.
É hora de acordar
Aos professores da UnirG, fica o chamado: participem das assembleias, conheçam a história das conquistas da categoria, acompanhem as negociações, fiscalizem a direção, apresentem propostas e cobrem transparência. Discordem quando necessário, mas não transformem a discordância em instrumento de desmobilização.
Não se trata de defender dirigentes por amizade, afinidade ideológica ou conveniência. Trata-se de compreender que nenhuma liderança substitui a força de uma categoria organizada. A luta de classes não desaparece porque deixamos de falar sobre ela. A desigualdade de poder não deixa de existir porque preferimos ignorá-la. E os direitos não permanecem protegidos simplesmente porque acreditamos que alguém lutará por nós.
O maior aliado de quem retira direitos é uma categoria que não reage. Se não fortalecermos hoje os instrumentos de defesa coletiva, poderemos descobrir amanhã que já não temos força suficiente para preservar o que gerações de trabalhadores conquistaram com décadas de luta.
Não basta aparecer quando o prejuízo é inevitável. É preciso participar quando ainda há tempo para evitá-lo. Acordar é urgente. Organizar-se é necessário. Participar é uma responsabilidade coletiva. O sindicato não é a luta de alguns contra todos. É a possibilidade de que todos tenham força para defender seus direitos. Fica a dica. E, sobretudo, fica o alerta.
Gilberto Silva – professor aposentado, jornalista e presidente da Apug-Ssind
Verdade Gil. Um exemplo é a perda salarial dos aposentados que ocorreu com um decreto municipal. Se tivesse tido mais participação dos professores, a pressão seria maior e não seríamos prejudicados.
Parabéns prof. Gilberto! A APUG é um sindicato combativo em defesa dos trabalhadores. Os valorosos compas da APUG sempre estiveram na trincheira, em luta no movimento docente.