O tempo passa.
Passa pela sala de aula,
pelos corredores das universidades,
pelos hospitais, repartições e escolas.
Passa pelo rosto do servidor,
pelos cabelos que embranquecem,
pelas costas que começam a doer
e pelas mãos que já não têm a mesma força.
Mas há uma coisa que parece não passar. A espera.
Espera-se pelo reajuste.
Espera-se pela progressão.
Espera-se pela negociação.
Espera-se pelo reconhecimento.
Espera-se pela aposentadoria.
E, quando ela finalmente chega,
muitos descobrem que passaram a vida inteira
esperando por uma dignidade que nunca veio.
O aposentado olha para trás e pergunta:
– Foi para isso que eu trabalhei tantos anos?
E o trabalhador que ainda está na ativa
olha para o aposentado e pergunta, em silêncio:
– Será que esse também será o meu futuro?
Essa é uma das faces mais perversas do nosso tempo.
O trabalhador não tem apenas medo de trabalhar.
Tem medo de envelhecer trabalhando.
Tem medo de chegar ao fim da carreira
e descobrir que o futuro foi diminuído
enquanto ele cumpria suas obrigações no presente.
Na universidade, isso ganha uma dimensão ainda mais cruel.
Entra um novo professor.
Chega cheio de sonhos, livros, projetos e disposição.
Ele pensa na pesquisa, na extensão,
na formação de novos profissionais,
na transformação da sociedade.
Mas, em algum momento, alguém lhe pergunta:
– E sua aposentadoria?
E talvez ele não saiba responder.
Porque o futuro do trabalhador brasileiro
parece cada vez mais uma estrada coberta de neblina.
Não sabemos exatamente onde termina.
Sabemos apenas que o caminho é longo
e que muitos já chegaram ao fim cansados,
desvalorizados e inseguros.
Por isso, a luta sindical não pode ser apenas
a luta pelo salário de hoje.
Precisa ser também a luta
pela dignidade de amanhã.
Sindicato não pode ser somente
quem corre atrás do governo
quando o contracheque vem menor.
Precisa ser quem acompanha
o trabalhador desde a entrada
até a aposentadoria.
Precisa defender quem está chegando,
quem está trabalhando
e quem já entregou décadas de sua vida.
Precisa transformar a indignação em organização,
a solidão em solidariedade
e a espera em mobilização.
Porque trabalhador sozinho espera.
Trabalhador organizado luta.
E sindicato forte não é aquele que promete milagres.
É aquele que informa, organiza, acolhe, cobra, negocia,
denuncia quando necessário
e mantém a categoria mobilizada
mesmo quando a resposta demora.
O tempo continuará passando.
A questão é se passaremos por ele apenas esperando
ou construiremos, juntos,
um futuro em que envelhecer trabalhando
não seja sinônimo de envelhecer lutando pela própria dignidade?
A aposentadoria deveria ser descanso depois da missão cumprida.
Não deveria ser o começo de outra batalha.
Porque quem dedicou uma vida ao serviço público
não está pedindo favor.
Está reivindicando o direito de envelhecer com dignidade.
Prof. Gilberto Correia da Silva – Presidente da ApugSsind – Gurupi – TO
Brasília-DF, 20 de setembro de 2026
Texto produzido no X Seminário Nacional de Saúde do Trabalhador Docente, promovido pelo ANDES-SN no período de 18 a 22 de setembro de 2026.
Esta obra é parte integrante da pesquisa de doutorado “Histórias de Vida de Pessoas Idosas no Distrito Federal: um olhar sobre o isolamento social na perspectiva teórica do ageismo”.
Autoria de Patricia Araújo Bezerra.
Orientação de Leides Barroso Azevedo Moura.
Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento,
Sociedade e Cooperação Internacional
Universidade de Brasília.
Desenvolvida no âmbito do projeto: “Isolamento social entre pessoas idosas no Distrito Federal”, financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal.
contato: pat.araujobezerra@gmail.com