Uma crônica de ficção, porque se fosse verdade seria sofrimento demais
São Paulo, quarta-feira, depois do jogo. O Parque São Jorge entrou em estado de emergência. Sirene tocando. Bombeiro correndo. Socorrista procurando torcedor. Psicólogo distribuindo lenço.
E um funcionário da administração tentando descobrir de onde vinha tanta água. A resposta era simples. Chororô. O Corinthians tinha acabado de ser eliminado da Libertadores pelo Estudiantes. E olha que o roteiro estava pronto para uma noite épica.
Estádio cheio. Torcida empurrando. Camisa pesada. História. Tradição. Pênalti. Era só colocar a bola para dentro. Mas Memphis Depay, aparentemente, recebeu uma informação equivocada.
Disseram a ele que o gol ficava depois da linha do horizonte. O homem tomou distância e soltou uma pancada tão violenta que a bola abandonou o futebol e entrou para a astronomia.
Segundo fontes absolutamente confiáveis do instituto internacional de notícias que ninguém confirmou, a Nasa detectou um objeto em velocidade anormal. O primeiro relatório dizia que era um possível meteoro. Já o segundo um possível cometa. Mas o terceiro disse não, que era um pênalti do Corinthians.
A bola já teria passado pela Lua. Depois foi vista perto de Saturno. Agora existe a possibilidade de ela estar seguindo em direção ao Sol. Os cientistas, porém, não estão preocupados com o calor. A análise técnica concluiu que depois da pancada que levou, essa bola não sente mais dor.
Aliás, a velocidade foi tão grande que especialistas acreditam que ela tenha criado um vácuo natural ao redor de si. Se continuar assim, pode até abrir um buraco negro. O perigo é o buraco negro acabar atraindo o Corinthians inteiro.
Em São Paulo, a situação era ainda mais grave. O volume de lágrimas aumentava minuto a minuto. A Prefeitura chegou a estudar a possibilidade de declarar o Parque São Jorge área de preservação ambiental.
Um bombeiro perguntou qual era a profundidade da água: Responderam a ele que dependia do número de corintianos lembrando que a Libertadores acabou.
Foi necessário distribuir boias. Mas como a diretoria corintiana já trabalha com tecnologia de ponta, não foram simples boias. Foram lançadas as famosas boletes salva-vidas do Timão. Equipamento desenvolvido especialmente para situações de emergência.
O kit possui boia para lágrimas, apito para pedir socorro, lenço impermeável, manual de como superar eliminações e um pequeno mapa indicando o caminho para a semifinal da Libertadores. O problema é que o mapa está desatualizado. Desde 2012.
Vamos falar sério por alguns segundos. Só alguns. Porque o assunto é Corinthians. A última Libertadores conquistada pelo clube foi em 2012. Desde então, a tão sonhada semifinal continental virou uma espécie de lenda urbana. É como o Pé-Grande. Todo mundo ouviu falar. Alguns dizem que viram. Mas ninguém apresenta prova convincente.
Em 14 anos, o Corinthians já teve tempo suficiente para trocar treinador, trocar diretoria, trocar elenco, trocar patrocinador, trocar planejamento, trocar discurso, trocar promessa, trocar esperança, e continuar sem trocar a rotina de eliminação. Talvez esteja faltando apenas trocar o GPS. Porque aparentemente o Corinthians continua procurando a entrada da semifinal.
Mas e a Arena? A Arena. Essa merece capítulo próprio. A bola de Memphis foi para o espaço. A conta da Arena, aparentemente, resolveu fazer o mesmo. Só que em direção contrária. Enquanto a bola subiu para o universo, as contas ficaram por aqui.
E foi justamente por isso que os bombeiros tiveram uma ideia brilhante. De fazer alguns furos nas contas da Arena para a água do chororô escoar. Funcionou parcialmente. O problema é que agora estão tentando descobrir se o dinheiro também não escapou pelos mesmos furos.
Do outro lado, o Estudiantes fez aquilo que precisava fazer. Jogou. Competiu. Sobreviveu. E agora pode voltar para casa contando uma história curiosa, de que foi ao Brasil enfrentar o Corinthians e encontraram uma bola viajando pelo sistema solar. Um torcedor argentino abusado perguntou: – E o Corinthians? E a resposta foi que ficou procurando a bola.
Mas o grande personagem dos próximos capítulos pode ser Fernando Diniz. O homem chegou com seu estilo, suas ideias e sua conhecida relação com o divã, digo, com o futebol. Só que existe um detalhe. Se o Corinthians não vencer o Fluminense na próxima rodada do Brasileiro, a pressão poderá aumentar ainda mais.
E aí teremos a primeira situação registrada na história da psicologia esportiva. Fernando Diniz fazendo terapia por causa do Corinthians. A consulta poderia começar assim: – Doutor, estou angustiado. O psicólogo: – Por quê? – Futebol, responderia Diniz. O médico insiste: – Qual o problema? Diniz responderá o obvio: – Corinthians.
Silêncio. Seguido de mais uma pergunta: – E o senhor está conseguindo dormir? – Não. – Está se alimentando normalmente? – Não. – Está trabalhando normalmente? – Também não. – E o senhor já pensou em procurar ajuda?
Diniz olha para o psicólogo e responde: – Foi exatamente por isso que marquei esta consulta. O psicólogo anota alguma coisa. Levanta-se. Pega o telefone. – Alô? É da clínica? Reserve um horário para mim também.
Agora o Corinthians tem uma missão simples. Vencer o Fluminense. Porque depois de uma eliminação continental, nada melhor que uma vitória no Brasileiro para acalmar os ânimos. Se perder…Bem… Aí o Parque São Jorge poderá precisar de uma operação conjunta.
Bombeiros. Psicólogos. Geólogos. Meteorologistas. E talvez a Nasa. Os bombeiros cuidam da enchente. Os psicólogos cuidam dos torcedores. Os geólogos estudam o terreno depois do terremoto emocional. Os meteorologistas acompanham a tempestade de lágrimas. E a Nasa? A Nasa fica responsável por procurar a bola de Memphis.
No futebol, a bola é redonda. Mas a paciência do torcedor não é. Ela vai diminuindo. Diminuindo. Diminuindo. Até desaparecer. O Corinthians agora precisa juntar os pedaços da eliminação, secar o Parque São Jorge, localizar Memphis, recuperar a autoestima e convencer a torcida de que existe vida depois da Libertadores.
Existe. Claro que existe. O problema é que, no caso corintiano, parece que essa vida está em outro planeta. E talvez seja justamente por isso que Memphis mandou a bola para lá. Quem sabe ele tenha descoberto o caminho.
Só falta alguém mandar o Corinthians seguir a mesma rota. Mas, por favor… sem Memphis cobrando o próximo pênalti. A Nasa agradece. Saturno também. E os bombeiros do Parque São Jorge, principalmente.
Por Gilberto Silva – Jornalista