Hoje Gurupi amanhece
com tristeza e solidão,
pois partiu um grande artista,
um poeta do sertão,
Antônio Farias, Palmares,
que nos deixa uma lição.
Alagoas foi seu berço,
Palmares, seu natural,
doze de junho de quarenta e nove,
data de um homem especial.
Mas foi Gurupi que acolheu
seu talento sem igual.
Trouxe na mala a poesia,
o repente e a cantoria,
trouxe a voz do nordestino,
sua força e alegria,
e fez do verso uma ponte
entre o povo e a poesia.
Palmares foi cordelista,
foi escritor e cantor,
repentista de talento,
da palavra foi senhor,
e fez da arte sua vida,
fez da cultura seu amor.
Pelas escolas de Gurupi
sua voz também passou,
levando aos nossos meninos
aquilo que sempre amou,
a beleza do cordel,
que ele ensinou e propagou.
Mostrava que um simples verso
pode ensinar e encantar,
que a cultura do nosso povo
também precisa se guardar,
pois quem conhece suas raízes
tem história pra contar.
Quantas crianças ouviram
Palmares declamar?
quantos jovens descobriram
que também podiam criar?
Quantos versos ficaram vivos
depois de vê-lo ensinar?
Foi mestre sem ser professor
somente dentro de um salão,
foi professor pela cultura,
pelo exemplo e pelo chão.
Ensinava com seus versos
As lições do coração.
Na Academia Gurupiense
de Letras, seu nome entrou,
e entre poetas e escritores
seu talento se destacou.
Levando a voz do povo simples
que jamais abandonou.
Sua cadeira acadêmica
guarda agora uma ausência,
mas também guarda uma história,
uma vida, uma existência,
de alguém que fez da poesia
uma forma de resistência.
E sua vida foi contada
num registro documental:
“Palmares – O Cantador de Cordel”,
um trabalho especial.
sua arte ganhou memória,
seu legado, um memorial.
Mas nenhum documentário
pode tudo registrar,
pois a maior obra de um homem
é aquilo que faz ficar.
São os amigos, são os alunos,
são as vidas a transformar.
Nesta sexta-feira triste,
quando a notícia chegou,
Gurupi ficou mais quieta,
e o poeta se calou.
Mas quem pensa que acabou
não sabe o que ele deixou.
Porque a morte leva o corpo,
mas não vence a criação.
Pode silenciar a voz,
não sepulta uma canção.
Quando a obra fica viva,
vive também o coração.
Palmares partiu da terra,
mas seu verso aqui ficou,
ficou dentro das escolas,
nos caminhos que trilhou,
nos seus livros e cantorias,
na cultura que abraçou.
Agora a viola chora,
o repente sente a dor,
o cordel perde um cantador,
Gurupi perde um escritor.
Mas o céu recebe um poeta
que aqui espalhou amor.
Quem sabe, do outro lado,
num lugar de paz e luz,
Palmares encontre os poetas
que caminharam com Jesus.
E, chegando com sua viola,
diga: “trago minha voz!”
E talvez Deus lhe pergunte:
“que trouxeste de onde vem?”
E ele responda sorrindo:
“trago versos, Senhor, também.
Trouxe tudo que escrevi
e as amizades que fiz bem.”
E Deus, conhecendo a alma
de quem viveu a cantar,
talvez diga simplesmente:
“Palmares, pode descansar.
Aqui não falta inspiração,
há eternidade pra versar.”
Porque poeta não termina
quando chega a despedida.
Ele fica nos seus versos,
na memória compartilhada,
e cada vez que alguém recita,
sua voz ganha nova vida.
Por isso, caro Palmares,
não diremos simplesmente “adeus”.
Diremos: “muito obrigado
por tantos presentes teus.”
Pelos versos e pela arte,
pela cultura que nos deu.
Obrigado pelas escolas,
pelos alunos, pela missão,
por fazer do nosso cordel
uma viva expressão.
Por mostrar que a poesia
também nasce do chão.
Obrigado pelos livros,
pelo canto e pelo repente,
por fazer do verso simples
uma mensagem permanente.
Por deixar em nossa terra
uma marca tão presente.
Gurupi há de guardar
o seu nome com carinho,
como guarda seus poetas,
cada qual no seu caminho.
Pois Palmares fez história
e jamais caminhou sozinho.
E nós, da Academia,
guardaremos sua memória,
pois cada poeta que parte
deixa um capítulo de história.
E Palmares, certamente,
deixa uma página de glória.
Que Deus conforte a família,
os amigos e companheiros,
os poetas, os escritores,
os artistas e parceiros.
Que a saudade vire força
nos caminhos derradeiros.
E que a nova geração
não permita o esquecimento,
que continue o cordel,
que continue o movimento.
Que os seus versos encontrem
novos palcos, novo tempo.
Palmares, vá em paz,
cantador do nosso chão,
leve consigo a certeza
de cumprir sua missão.
Aqui fica a sua obra,
aqui fica a gratidão.
E se um dia alguém perguntar:
“quem foi esse tal Palmares?”
Respondam com muito orgulho,
sem receio e sem pesares,
foi Antônio Farias, poeta,
Que fez de Gurupi seus cantares.
Foi cordelista e repentista,
foi escritor e cantor,
foi acadêmico e mestre,
foi da cultura um defensor.
Foi um homem que fez da vida
uma declaração de amor.
E quando alguém abrir um livro
e começar a declamar,
quando uma criança na escola
um cordel começar a criar,
quando a viola fizer silêncio
e depois voltar a cantar,
Quando alguém contar sua história
numa roda de poesia,
quando o repente ganhar voz
ao nascer de um novo dia,
quando Gurupi falar de cultura…
Palmares estará em nossa companhia.
Porque o homem pode partir,
a caminhada pode cessar,
mas quem planta poesia
não consegue se apagar.
O corpo volta para a terra,
mas o verso continua a voar.
Então receba esta homenagem,
nosso querido companheiro.
Não é somente uma despedida,
é um abraço verdadeiro.
De quem fica com saudade
do poeta e do guerreiro.
Adeus, Antônio Farias!
Adeus, nosso bom Palmares!
Gurupi guarda teu nome
entre seus grandes cantares.
E enquanto houver poesia,
viverão teus exemplares.
Homenagem da Academia Gurupiense de Letras
Pr. Gilberto Silva
Acadêmico da Academia Gurupiense de Letras
