O sol resolveu aparecer hoje sem pedir licença. Chegou alto, inteiro, sem nuvem para pedir desculpa. E junto com ele veio aquela sensação de leveza que a gente esquece que existe.
O céu está tão azul que dói de bonito. Só duas ou três nuvens perdidas, preguiçosas, como se também estivessem de folga. Lá embaixo a montanha faz silêncio, as árvores nem se mexem, e até o vento parece ter tirado o dia para descansar.
Foi nesse clima que eu calcei o chinelo e fui à praia. Areia quentinha queimando de leve a sola do pé. O mar batendo manso, sem pressa, como quem também está de bem com a vida.
E eu caminhando. Sem destino, sem cronômetro. Só eu, o som das ondas e a sombra curta correndo do meu lado. Tem algo numa caminhada de praia em dia claro que desmonta a gente por dentro. A cabeça esvazia. O peito abre.
Cada passo afunda um pouco na areia e tira junto um pensamento pesado. As pessoas passam sorrindo. Criança corre, pipa no alto, vendedor de mate grita ao longe. Mas parece que o mundo inteiro combinou de falar baixo hoje.
É dia de paz. Daquelas que não precisam de barulho. Dia de caminhar devagar, de sentir o calor na pele e deixar. Dia de ver gente sorrindo à toa na rua, de cachorro tirando cochilo na calçada, de roupa estendida secando rápido.

A vida, nesses dias, não pede nada. Ela só acontece. O café fica mais gostoso, a conversa rende mais, e o peito, por algum motivo, decide não carregar peso. Não tem pressa, não tem urgência. Tem sol. Tem céu. Tem mar. Tem tempo.
Tem aquele tipo de alegria simples que não se explica, só se sente. Alegria de estar vivo num dia claro, com os pés na areia e o coração leve. E quando a noite chegar, a gente vai lembrar desse sol alto e pensar:”Hoje o mundo deu certo”.
Por Gilberto Silva