Muito palco, pouco futebol

A convocação da Seleção Brasileira para a Copa virou um espetáculo que parece ter confundido marketing com relevância esportiva. O que deveria ser um ato simples, objetivo e institucional transformou-se em uma produção exagerada, carregada de firulas, pompa e uma estética de gosto bastante discutível. Tudo isso para anunciar nomes que, historicamente, sempre foram revelados em uma sala de imprensa da CBF, sem necessidade de pirotecnia.

O problema não é modernizar a comunicação. O futebol mudou, o consumo de mídia mudou e a seleção precisa dialogar com novas gerações. Mas existe uma linha tênue entre aproximar o torcedor e transformar a camisa mais pesada do futebol mundial em um produto de entretenimento vazio. A cerimônia pareceu mais preocupada em viralizar nas redes sociais do que em transmitir seriedade, grandeza e respeito pela própria história da Seleção.

No meio desse cenário, Carlo Ancelotti acabou exposto de maneira desconfortável. Um treinador multicampeão, acostumado aos maiores palcos do futebol europeu, colocado no centro de uma encenação confusa, artificial e desnecessariamente espalhafatosa. Em vez de transmitir confiança no início de um novo ciclo, o evento passou uma sensação de improviso e excesso.

E isso ganha contornos ainda mais contraditórios quando se olha para o momento esportivo e institucional da CBF. A Seleção vive anos distantes do futebol dominante que já apresentou ao mundo, enquanto a entidade acumula escândalos, crises políticas e desgaste de imagem. Diante desse contexto, tanta festa soa deslocada. Parece maquiagem em cima de problemas estruturais que seguem sem solução.

No fim, criou-se um ambiente de celebração para uma equipe que ainda precisa reconquistar prestígio dentro de campo. O torcedor quer menos espetáculo de lançamento e mais futebol convincente. Quer organização, identidade e desempenho. Não um evento que pareça uma mistura de campanha publicitária com programa de auditório.

E Neymar? Neymar vai. Porque, gostem ou não dele, ainda é o maior símbolo técnico e midiático desta geração da Seleção. Entre lesões, polêmicas e expectativas frustradas, continua orbitando o centro do debate nacional. Sua presença talvez diga menos sobre o momento do jogador e mais sobre a incapacidade do futebol brasileiro de produzir uma nova referência incontestável.

Mas o verdadeiro desafio da Seleção não é decidir se Neymar deve estar ou não na lista. É voltar a jogar futebol à altura da própria história. Porque sem isso, qualquer cerimônia vira só fumaça. E fumaça não ganha Copa do Mundo.

Gil Correia – Cronista esportivo

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