Quando o Brasil perdeu a magia e a própria identidade

A pátria de chuteiras, que ensinou o mundo a sorrir com uma bola nos pés, precisa reencontrar aquilo que sempre foi sua maior conquista, a própria identidade

Há um momento na história do futebol brasileiro que parece pertencer mais à poesia do que aos livros de estatística.

É o instante em que Pelé levanta a taça no México, em 1970.

Naquele dia, o Brasil não conquistava apenas o terceiro título mundial.

Conquistava uma imagem.

Um lugar no imaginário do planeta.

A seleção brasileira não era apenas uma equipe vencedora.

Era uma declaração de existência.

Um país que muitas vezes era visto como periférico nas grandes decisões econômicas e políticas do mundo aparecia diante dos olhos de milhões de pessoas como uma potência.

Mas uma potência diferente.

Não baseada em armas.

Não baseada em dinheiro.

Baseada na criatividade.

Na alegria.

Na arte.

O Brasil jogava futebol como quem sambava.

E talvez esse tenha sido o maior patrimônio que o país construiu no esporte.

A bola brasileira tinha alma.

Durante décadas, quando alguém falava em futebol, pensava no Brasil.

Era impossível separar a camisa amarela de uma ideia de beleza.

Garrincha não era apenas um jogador.

Era uma afronta à lógica.

Um homem que transformava limitações em genialidade.

Pelé não era apenas um goleador.

Era a síntese de uma época em que o impossível parecia uma possibilidade.

O futebol brasileiro tinha uma característica que assustava os adversários, a imprevisibilidade.

O mundo sabia como o Brasil jogava.

Mas quase nunca sabia como impedir.

Porque a criatividade não cabe em uma prancheta.

O improviso não aparece em uma planilha.

A genialidade não aceita treinamento para ser programada.

O futebol virou uma indústria

Mas o mundo mudou.

O futebol mudou.

A bola que antes carregava apenas paixão passou a carregar bilhões.

Os clubes transformaram-se em empresas globais.

As ligas mais ricas passaram a concentrar investimentos, tecnologia, marketing e os maiores contratos de televisão.

O futebol deixou de ser apenas uma disputa entre onze jogadores.

Virou uma disputa entre modelos econômicos.

Nesse novo cenário, o Brasil começou a enfrentar um problema sério.

Continuava produzindo os melhores talentos, mas já não conseguia mantê-los.

O país passou a revelar para o mundo.

Mas o mundo passou a lucrar mais com aquilo que o Brasil criava.

Os grandes craques brasileiros começaram a sair cada vez mais cedo.

A camisa do clube brasileiro virou muitas vezes apenas uma passagem.

Uma vitrine.

Um estágio antes do grande mercado europeu.

O Brasil exportou seus próprios sonhos

Existe uma imagem simbólica que explica muito da história recente.

o Brasil produz a joia, mas outro país lapida, valoriza e transforma em riqueza.

Não é apenas uma questão esportiva.

É uma questão econômica.

Os grandes centros do futebol mundial aprenderam a transformar talento em negócio.

Enquanto isso, muitos clubes brasileiros permaneceram presos a dificuldades administrativas, dívidas, gestões frágeis e pouca capacidade de planejamento.

O problema não foi apenas perder jogadores.

Foi perder estrutura.

O dia em que a rua perdeu para a prancheta

Talvez a maior mudança tenha acontecido longe dos estádios.

Aconteceu nas ruas.

O futebol brasileiro nasceu da improvisação.

Do menino que jogava descalço.

Do drible inventado na hora.

Da jogada que ninguém ensinou.

Com o tempo, o futebol ficou mais científico.

Mais organizado.

Mais estudado.

E isso não é um problema.

O problema foi esquecer que ciência sem criatividade produz apenas eficiência.

Não produz encantamento.

O Brasil passou a formar atletas.

Mas deixou de formar tantos artistas.

O jogador brasileiro sempre teve algo que não se aprende:

a ousadia.

O direito de tentar.

A coragem de errar.

A liberdade de criar.

De 1970 a 2002 iniciou a longa despedida da coroa.

Depois do tricampeonato no México, veio uma espera de 24 anos até 1994.

O título nos Estados Unidos trouxe uma nova característica.

Era um Brasil mais competitivo.

Mais cauteloso.

Mais preocupado em vencer.

Mas ainda campeão.

Em 2002, veio talvez o último grande momento da velha escola brasileira.

A seleção de Felipão tinha organização, mas também tinha magia.

Ronaldo Fenômeno.

Rivaldo.

Ronaldinho Gaúcho.

Cafu.

Roberto Carlos.

Jogadores que representavam duas eras.

A do futebol globalizado e a do talento brasileiro.

Foi uma última grande dança.

O 7 a 1 foi mais do que um placar

A derrota para a Alemanha em 2014 entrou para a história como uma das maiores tragédias esportivas do país.

Mas o problema não foi apenas perder.

Foi perceber que o Brasil já não era mais aquele gigante que assustava o mundo.

O 7 a 1 revelou uma distância.

Uma distância de planejamento.

De organização.

De preparação.

De modelo.

A seleção brasileira não perdeu apenas uma partida.

Perdeu uma certeza.

A certeza de que o talento, sozinho, sempre resolveria.

A crise começa fora das quatro linhas

O futebol brasileiro também precisa olhar para dentro.

A instabilidade administrativa.

Os problemas de gestão.

As disputas políticas.

Os escândalos envolvendo dirigentes.

Tudo isso ajudou a construir um cenário de fragilidade institucional.

Não existe seleção forte sem estrutura forte.

Não existe talento sustentável sem organização.

Não existe futuro sem planejamento.

Grandes potências esportivas não vivem apenas de craques.

Vivem de projetos.

O Brasil ainda pode voltar?

A resposta está onde sempre esteve.

Na bola.

No menino.

Na rua.

Na paixão.

O Brasil não perdeu o talento.

Perdeu parte do caminho.

Ainda existe criatividade.

Ainda existe habilidade.

Ainda existe aquele jogador capaz de fazer a torcida levantar antes mesmo do gol acontecer.

Mas é preciso recuperar uma coisa fundamental.

A confiança na própria identidade.

O Brasil não precisa copiar a Europa.

Precisa aprender com o mundo sem deixar de ser Brasil.

Porque o futebol brasileiro nunca foi grande quando tentou parecer com alguém.

Foi grande quando teve coragem de ser diferente.

A bola brasileira não morreu.

Ela apenas espera novamente alguém que tenha coragem de fazê-la sorrir.

E talvez o próximo grande craque do Brasil já esteja por aí.

Em algum campo de terra.

Em algum bairro simples.

Com uma bola velha nos pés.

Tentando um drible que ninguém ensinou.

Como sempre foi.

Como sempre será.

Porque antes de ser um negócio, o futebol brasileiro nasceu como sonho.

Gilberto Silva – Jornalista e cronista esportivo

P.S.

Escrito antes da derrota para a Noruega, já prevendo a pífia participação, mesmo com um técnico estrangeiro e badalado no comando. Nada adiantou.

Um comentário em “Quando o Brasil perdeu a magia e a própria identidade

  1. E verdade parabenizo tão sábias palavras o que é programado e técnico ,mas o que é instantâneo inventado sem insano para mídia se vinha de uma naturidade de um sonho de algo de alma .
    De incentivo de exemplo de exporte em um país global livre cheio de expressão
    Realmente a realidade é de um negócio de finanças e aparência triste .

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