A revolução da Inteligência Artificial já está em curso e exige de pais e professores coragem, atualização e preparo para formar jovens capazes de conviver criticamente com as máquinas, sem serem engolidos por elas.
A Inteligência Artificial (IA) não é mais apenas um produto da fantasia artística, como um dia já o foi. Quem não se recorda de filmes como Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982), A.I. – Inteligência Artificial (2001) e Minority Report: A Nova Lei (2002)? O futuro da IA, com suas próprias realidades, já chegou e faz parte da paisagem da vida contemporânea, devendo alterá-la continuamente, de maneiras profundas e imprevistas.
Para pais, professores e todos que hoje se ocupam de formar as novas gerações, é essencial examinar qual postura adotar frente à IA e como isso pode impactar a vida dos jovens de hoje, para quem a tecnologia pode comparecer como aliada ou rival. É bom ter em mente as palavras de Yuval Noah Harari, em seu livro Nexus (2024), de que a invenção da IA tem potencial para se tornar mais importante que a invenção da própria escrita, posto que é a primeira tecnologia capaz de tomar decisões e gerar ideias próprias.
Dito de modo simples: a IA veio para ficar, e quanto mais estivermos capacitados para lidar com ela, melhor será para nós mesmos e para aqueles a quem nos cabe formar.
Os impactos já chegaram, e serão muito maiores
Por volta de 1811, um grupo de tecelões organizou um movimento contra os proprietários de fábricas na Inglaterra. O tear mecânico estava substituindo o trabalho manual e, consequentemente, formando uma fileira de tecelões desempregados, o que afetava não apenas os trabalhadores, mas também suas famílias.
O protesto, que envolvia a destruição de máquinas, foi duramente reprimido pelo governo britânico e terminou com a prisão e o enforcamento dos líderes luditas.
A situação atual, porém, é muito diferente de qualquer outra que já tenha existido. Conforme explica Ray Kurzweil, pesquisador principal de IA da Google, em seu novo livro A Singularidade Está Mais Próxima (2024), embora as pessoas reconheçam há mais de duzentos anos a ameaça que a automação representa para os empregos, a situação atual é distinta pela amplitude, profundidade e velocidade da transformação.
Todas as tarefas que possam ser desempenhadas pela IA serão substituídas pela máquina, o que vai transformar e até mesmo extinguir muitas profissões. É verdade que outras irão surgir, mas a capacidade de trabalhar em complementariedade com a IA será indispensável.
Em qual fileira você, seus filhos ou estudantes estarão?
A destruição de empregos pela automação irá gerar, de maneira exponencial, fileiras de desempregados, tal como aconteceu com os tecelões na Inglaterra em 1811. Isso já está acontecendo e tende a alcançar todas as esferas da atuação humana. Uma das maneiras de enfrentar essa onda de inovação destruidora é uma educação à altura das exigências de atuação do humano em complementariedade com a IA, pontua Kurzweil.
Para o escritor e médico francês Laurent Alexander, em A Guerra das Inteligências na Era do ChatGPT (2024), isso não significa que todos devam se tornar especialistas em IA, mas que saibam lidar com ela de forma crítica e criativa.
Aqui está o grande desafio para pais e educadores: não ignorar a presença da IA, mas formar, desde cedo, pessoas capazes de ter uma postura curiosa, corajosa, criativa, crítica e responsável na vida e no mundo. Essas não serão substituídas pela IA.
Educação permanente: a saída possível
Para os que já estão na zona de ameaça hoje, uma das saídas apontadas pelo filósofo e escritor francês Luc Ferry, em seu livro A Revolução Transumanista (2016), é a formação permanente. Para ele, o ponto central não é proteger os empregos que hoje existem, mas sim proteger os trabalhadores, preparando-os para permanecer em um mercado de trabalho que será mais mutante do que nunca.
A educação, como se vê, não perde terreno em importância; pelo contrário, ganha ainda mais relevância. Porém, para estar à altura dos desafios dos novos tempos, ela mesma deve se transformar e saber usar a IA a seu favor. O que, sabemos, acontecerá muito lentamente.
Por isso, pais e professores, independentemente da educação enquanto sistema, devem fazer esse movimento por si mesmos, atualizando-se para não ficar para trás e nem deixar os seus serem engolidos pelo tsunami da revolução em curso da IA. Cada um deve responder a si mesmo: em qual fila eu, meus filhos ou meus alunos vou estar? A resposta dependerá muito da postura adotada agora. Meu desejo sincero é que você e os seus possam se mover com flexibilidade nesse mundo cada vez mais povoado pela IA. Sucesso.
*Sobre o autor: Francisco Neto Pereira Pinto é escritor e psicanalista. Doutor em Letras, é também Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura da Universidade Federal do Norte do Tocantins. Entre outras obras, é autor de À beira do Araguaia.
Extraido do https://dgrj.com.br/tecnologia/pais-professores-e-inteligencia-artificial