Depois de 90 dias afastado, o ministro Nunes Marques, determinou o retorno do governador afastado, Wanderlei Barbosa, ao comando do Tocantins. A decisão reacende muitas incógnitas políticas e institucionais, a partir das ações, posições e decisões tomadas pelo governador em exercício no período, o vice-governador Laurez Moreira. A seguir, trazemos uma reflexão político-estratégica sobre o que vem pela frente, nesse “tabuleiro” que se abre, os cenários plausíveis e os riscos, sem fazer juízo de valor, mas com análise estritamente política a partir dos fatos e da decisão do STF.

Contexto sobre o que mudou até aqui
Em 3 de setembro de 2025 o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou o afastamento de Wanderlei, no âmbito da investigação da Operação Fames-19, sob suspeita de desvio de recursos públicos da pandemia.
Com isso, assumiu como governador em exercício o vice, Laurez Moreira — que promoveu uma ampla reforma no primeiro escalão, exonerando grande parte dos secretários, reestruturando autarquias e cargos estratégicos.
Apesar disso, Laurez reconduziu parte (7 de 53) dos antigos gestores da administração anterior, sinalizando algum grau de moderação ou pragmatismo. Uma pesquisa online indicou que quase 80% dos tocantinenses manifestaram apoio ao retorno de Wanderlei, o que demonstrava que, nas redes sociais e em parcelas da opinião pública, o ex-governador continuava com base significativa.
Agora, com a decisão liminar do Supremo Tribunal Federal (STF), por intermédio de Nunes Marques, Wanderlei reassume o governo até que o mérito do habeas corpus seja julgado, em razão da falta de contemporaneidade das acusações e da posição da Procuradoria‑Geral da República (PGR), contrária à manutenção do afastamento.
Em outras palavras: o Palácio Araguaia troca de “mão” logo no início de dezembro, reabrindo disputas de poder, acirrando expectativas e criando um ambiente volátil justamente quando o estado se aproxima de um ciclo eleitoral importante.
Quais os desafios imediatos de Wanderlei e os dilemas políticos
Ao reassumir, Wanderlei Barbosa enfrenta dois vetores de pressão, que podem moldar (e definir) sua próxima fase de governo.
Reconstrução da autoridade institucional X clima de desconfiança
Ele precisa demonstrar que governa de fato. Retomar agendas, decisões executivas, alianças políticas, mas sem dar a impressão de “vingança automática” contra quem esteve no governo interino (secretários exonerados, aliados de Laurez).
A sociedade e parte da classe política acompanharão atentamente os atos de nomeação, exoneração, contratos, investimentos públicos, para avaliar se o retorno significa continuidade de estabilidade ou retorno à desconfiança.
Gestão para entregar resultados concretos X visibilidade para disputa eleitoral futura
Faltando menos de um ano para as eleições de 2026, Wanderlei deve equilibrar. Ao mesmo tempo em que acerta a máquina (gastos, obras, programas), ele também precisa montar narrativa de liderança, competência e recuperação, para preservar ou ampliar seu capital político.
Essa tentativa de “inversão de marchas” pode exigir escolhas complicadas, como alianças, negociações com o Legislativo e com poderosos grupos locais, decisões ásperas de governança ou cortes impopulares, que podem abalar sua popularidade ou consolidá-la.
Portanto, o primeiro mês de governo será decisivo e servirá como termômetro para saber se seu retorno será sinônimo de retomada ou de nova crise institucional.
O que muda para Laurez Moreira e seus desafios pós-interinidade
Para Laurez, o reinício de Wanderlei representa o fim de uma janela de oportunidade rara. Por 94 dias ele teve nas mãos o governo, promoveu reformas, nomeou equipe, ganhou visibilidade e, em parte, “assinou” feitos. Agora ele deixa o governo mas não sai politicamente enfraquecido. Ao contrário, se souber gerenciar bem os próximos passos, pode se posicionar como um “governador paralelo” ou liderança de peso no Tocantins.
Se pretende disputar o governo em 2026 (como já indicou), provavelmente vai usar esse período de 2025–2026 para construir base própria, evidenciar a “gestão de crise”, angariar apoios, e tentar apresentar-se como alternativa a Wanderlei.
Entretanto, há risco de desgaste: caso Wanderlei seja absolvido ou recupere legitimidade, a narrativa de “gestão limpa e competente” de Laurez perde força. Se, por outro lado, o governo recomeça com turbulências, com denúncias e instabilidade, é possível que Laurez seja visto como responsável por ter aberto a porta para essa retomada (a depender de como se comportar).
Ou seja, Laurez sai da moita, mas, ironicamente, permanece no tabuleiro. Resta saber se volta a ser peão, adversário – claro ou sombra política, ou no melhor dos cenários, uma alternativa competitiva.
O que esse retorno representa como “cartas” para a disputa nas eleições 2026
Considerando o contexto eleitoral nacional de 2026, o retorno de Wanderlei Barbosa gera ao menos três consequências estratégicas.
Capacidade de mobilização e narrativa de “ressurreição.” Se ele mostrar que retomou o governo com autoridade, foco e resultados, neutralizando as suspeitas jurídicas, terá um forte discurso de “injustiça revertida”, o que tende a mobilizar sua base (guardas, eleitores leais, setores que ainda confiam nele).
Precedente de instabilidade x apelo à “estabilidade”. O histórico recente de afastamentos, interinidade e reviravoltas no Tocantins pode ser explorado por adversários como argumento de “imprevisibilidade” e “risco institucional”. Assim, quem se colocar como “alternativa segura” pode ganhar força. Se Laurez se posicionar como tal e consolidar uma pré-candidatura, pode roubar parte desse eleitorado descontente com o ciclo de crise.
Palanque de poder antecipado. O controle do governo permite acesso a recursos, políticas públicas, decisões de impacto social. O que, em ano pré-eleitoral, representa um enorme cacife. Se Wanderlei mantiver a gestão com pragmatismo, pode sair de 2026 como favorito, caso decida-se candidatar ao cargo de senador, o que tem negado sistematicamente, pelo menos até 90 dias atrás, Mas pode alavancar, mesmo com o histórico complicado.
No entanto, tudo depende das escolhas dos próximos meses. Estabilidade institucional, resultados concretos, articulação política, e como o saldo do desgaste judicial será administrado.
Possíveis cenários e o que vigilância cidadã e política pede
Aqui apresentamos três cenários plausíveis, dependendo das escolhas de Wanderlei (e da reação de Laurez/oposição), apenas como exercício politico e de cidadania.
| Cenário | Como se chega lá | Resultado provável |
|---|---|---|
| Reconciliação institucional + foco em governabilidade | Wanderlei reconduz parte da equipe, negocia com partidos, evita “limpeza” radical, prioriza gestão técnica | Governo estabilizado, reaproximação com o eleitorado moderado, cacife para 2026 elevado |
| Retaliação e disputa de poder interna | Exonerações em massa, perseguições políticas, políticas de favorecimento aos leais, retórica de revanche | Polarização interna, prejuízo institucional, desgaste de imagem e aumento da instabilidade |
| Gestão frágil + denúncias + desgaste eleitoral | Incapacidade de governar bem, escândalos, desgaste por inquéritos, crise econômica/social | Redução de apoio popular, espaço para terceira via, enfraquecimento de Wanderlei e fortalecimento de adversários (incluindo Laurez) |
Para a saúde da democracia e do estado, o ideal, embora menos provável, seria o primeiro cenário. Com foco na gestão, no diálogo, no equilíbrio institucional e no respeito à fiscalização, especialmente fora do ano eleitoral. A vigilância da sociedade e da imprensa será essencial nesses meses.
Leitura pessoal e porque vale ficar atento e observar de perto
O retorno de Wanderlei não significa que os processos foram arquivados. As investigações continuam. A decisão liminar do Supremo Tribunal Federal suspendeu o afastamento por razões de proporcionalidade e ausência de risco imediato, mas não absolve o governador.
Esse tipo de reviravolta política em véspera eleitoral pode gerar instabilidade, e atrair olhares externos (investidores, órgãos de controle, imprensa nacional), com reflexos para a imagem do Tocantins, positivo ou negativo.
A articulação de alianças políticas nos próximos meses será decisiva para definir quem realmente tem força rumo a 2026: se Wanderlei se reergue como líder do estado ou se Laurez, ou da senadora Dorinha, já candidata declarada, ou outra alternativa viável que possa surgir, embora entenda que o tempo é curto para outra alternativa. Mas já sabendo de antemão, que em política nada é impossivel. Basta juntar os interesses.
Do ponto de vista da sociedade, há uma oportunidade, e ao mesmo tempo um risco. O governo pode usar sua base de apoio e os recursos do Estado para consolidar poder, ou pode se submeter ao controle democrático e dar exemplo de governança com transparência.
Para isso podemos trabalhar dois cenários detalhaddos até 2026. Um ótimo e outro pessimista, com prováveis desdobramentos políticos e institucionais no Tocantins, que pode ajudar a visualizar os riscos e oportunidades concretamente. Mas isso é para outro texto, que vamos preparar na sequência.
Por Gilberto Silva