Decisões sem consulta, falta de sintonia e um estadual que teima em não acabar
Vinte e três dias depois de Gurupi, Tocantinópolis e Araguaína se reunirem no norte do estado para, em comum acordo com a Federação Tocantinense de Futebol (FTF), definir a reta final do Campeonato Tocantinense da Primeira Divisão de 2025, tudo volta à estaca zero. O entendimento firmado entre clubes e FTF ruiu após o comunicado da CBF, que determinou que a indefinição precisa ser solucionada até o dia 31 de dezembro deste ano, desautorizando o planejamento de encerramento apenas em 2026.
A reviravolta ocorre após a decisão do STJD, que puniu o União – então campeão estadual – pela escalação de um jogador irregular, alterando completamente o rumo da competição. Após a decisão judicial e os embargos, clubes e federação tentaram reorganizar o calendário, mas pecaram num ponto básico: esqueceram de consultar a entidade máxima do futebol brasileiro.
A FTF interpretou que a decisão do STJD, ao determinar que o imbróglio fosse resolvido administrativamente, dava margem para tratar o caso como assunto interno. Os clubes concordaram, aceitaram a ideia, mas nenhum dos lados buscou a chancela da CBF, salvo melhor juízo. Agora, com o posicionamento firme da confederação, a federação corre contra o tempo e convocou, às pressas, uma reunião de emergência para a próxima segunda-feira, dia 18, às 9 horas, em Palmas, na sede da Federação, para refazer o calendário e “reinaugurar” a fase semifinal do campeonato que insiste em não terminar.
Enquanto isso, o efeito dominó atinge outras frentes. O Tocantinópolis, que havia anunciado a desistência de participar da Copa São Paulo de Futebol Júnior para focar na reta final do estadual deste ano e nas competições de 2026, vê-se novamente no limbo. O que era certo vira dúvida. O planejamento, mais uma vez, foi engolido pelo caos.
O cenário revela, com toda nitidez, um problema crônico. A falta de sintonia entre clubes, federação e as instâncias superiores do futebol nacional. Uma fragmentação que impede qualquer avanço, qualquer sonho de crescimento ou projeção nacional. Fala-se em levar um time tocantinense à Série B do Brasileirão – como já apregoou Vanderlei Luxemburgo – em entrevista recente, mas como alcançar voos tão altos se, internamente, os mesmos clubes não conseguem organizar nem um simples calendário estadual?
Se a crítica precisasse de mais um tempero, basta olhar o que está acontecendo na Segunda Divisão. A rodada de volta da fase semifinal foi marcada para o dia 29 de novembro, justamente quando Flamengo e Palmeiras decidem a Libertadores da América. A pergunta é inevitável: quem vai ao estádio nesse dia? Para piorar, informações de bastidores apontam que dois clubes aceitaram a data e outros dois não, mas que ela só seria homologada se todos concordassem. Um detalhe que, no futebol tocantinense, mais parece ficção. Afinal, quando foi que houve consenso entre os clubes do estado?
A máxima continua a mesma: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Cada um puxa para o seu lado, a federação tenta apagar incêndios, e o produto final, o futebol tocantinense, paga a conta com descrédito, desorganização e um desgaste que se repete ano após ano, afastando cada vez mais pretensos e possíveis patrocinadores.
Diante desse quadro, é inevitável concluir. O futebol do Tocantins precisa de uma verdadeira metanóia. Uma mudança profunda de mentalidade, gestão, visão e responsabilidade. Sem isso, continuaremos vendo campeonatos que não terminam, calendários improvisados, decisões atropeladas e oportunidades desperdiçadas.
Enquanto os clubes não enxergarem além do próprio umbigo e enquanto a FTF não se alinhar de forma clara com as normas e prazos nacionais, o futebol tocantinense continuará preso no mesmo ciclo. E o torcedor – sempre ele – seguirá sendo o maior prejudicado nessa engrenagem desajustada.
Por Gilberto Silva