Há um ponto de ruptura no silêncio histórico dos artistas tocantinenses. E quem o expôs com coragem foi Dorivã Borges, uma das vozes mais autênticas e respeitadas da cultura regional. Seu depoimento não é apenas um desabafo. É um diagnóstico profundo de um sistema cultural desequilibrado, injusto e, sobretudo, desconectado da própria identidade do Tocantins.
Enquanto os artistas que constroem, sustentam e exportam a verdadeira alma tocantinense sobrevivem à base de resistência e amor à arte, os cofres públicos sangram cifras extravagantes para custear uma farra de shows importados, muitos deles protagonizados por artistas que a população local sequer reconhece. A disparidade não é apenas econômica. É cultural, moral e simbólica.
A prática, que Dorivã chama de “estranha”, tem nome e sobrenome, também apelidada de emendas parlamentares, usadas como instrumento de blindagem política, promoção pessoal e loteamento de recursos públicos. Muitas vezes, por meio de institutos intermediários que atuam sem a devida transparência e fora do escrutínio social.
Não se trata de apoiar a música ou incentivar o turismo cultural. Trata-se de uma engrenagem silenciosa que movimenta milhões enquanto ignora, ou pior, despreza, aqueles que de fato constroem a cultura regional.
Segundo informações recentes, noticiadas em larga escala na mídia tocantinense, o governo de Wanderlei Barbosa (Republicanos) teria destinado R$ 430 milhões à realização de shows e eventos entre 2023 e setembro deste ano. Desse montante, R$ 81 milhões foram canalizados por meio de emendas parlamentares, operacionalizadas por institutos ligados a deputados estaduais.
Para Dorivã, os números são alarmantes, mais alarmante ainda é a lógica que os sustenta. “É algo que me causa espanto. De repente, artistas que ontem estavam no anonimato surgem como astros, com cachês altíssimos. Gente que não conhecemos, que nunca vimos, que nunca trocaram sequer um bom-dia conosco”, afirmou.
O cantor reforçou o contraste gritante. Enquanto nomes estranhos ao público local são contemplados com cifras milionárias, os artistas que há décadas carregam o Tocantins em suas composições, que representam o Estado dentro e fora do país, seguem invisibilizados pelas emendas culturais. “Será que precisamos viver mais 50 anos para enfim sermos valorizados pelos deputados?”, questionou.
Dorivã lembra ainda que emendas são dinheiro público, e que dinheiro público deve servir ao interesse coletivo. No entanto, segundo ele, o discurso de que tais contratações milionárias são feitas “em nome da cultura” soa como um deboche. “Dizem que é pela cultura, mas ignoram justamente quem produz cultura de verdade”, criticou.
O artista encerrou com um apelo direto às instituições. Que o Ministério Público e o Poder Público passem a enxergar a legitimidade e a dignidade do trabalho dos criadores locais. É um trabalho honesto, digno, feito com amor e responsabilidade”, concluiu.
Uma crítica necessária
O depoimento de Dorivã, somado à análise jornalística, expõe um sistema cultural que opera de ponta-cabeça. Recursos bilionários para o que não representa o Tocantins, enquanto a cultura tocantinense agoniza pedindo espaço. A equação é simples e vergonhosa: quanto mais distante da realidade cultural do povo, maior o cachê. Quanto mais profundamente ligado à identidade regional, menor o apoio.
Esse cenário evidencia que não há política cultural. Existe apenas política. Não há valorização do patrimônio artístico, mas sim compra de prestígio. Não há visibilidade para quem faz cultura, somente holofote para quem convém.
Dorivã não falou só por si. Falou por toda uma geração de artistas que, apesar de seu talento e de sua importância histórica, são reduzidos a figurantes enquanto a “indústria das emendas” produz estrelas instantâneas de ocasião.
É hora de repensar profundamente o uso dos recursos públicos na cultura tocantinense. Não por revanchismo, não por corporativismo, mas por princípio. Cultura não é moeda de troca, não é palanque, não é plataforma de marketing. Cultura é identidade, memória, pertencimento e dignidade.
E, nesse quesito, Dorivã Borges é – e sempre foi – cultura tocantinense em sua forma mais pura.