Nem esquerda, nem direita, a tragédia é de todos nós

Na esteira das recentes cenas chocantes que se repetem diariamente nas ruas da Rio de Janeiro, corpos estendidos, mortes quase sem reconhecimento, o Estado praticamente em silêncio, somos convocados a olhar para a tragédia sob uma lente que vai além do imediatismo midiático e da polarização política. O verdadeiro cerne do problema permanece ofuscado enquanto se montam palanques de culpabilização entre esquerda e direita.

O espetáculo da acusação recíproca

De um lado, o governo federal afirma estar sempre pronto, disponível. Do outro, o governador Cláudio Castro proclama abandono, críticas ao governo central, mas não diz que recusou ajuda no início do ano. Enquanto isso, governadores de cinco estados se alinham para “dar apoio moral” como se a tragédia fosse espetáculo partidário, e não algo que exige resposta imediata e estratégica.

Se o governador Castro afirmava que a estratégia de ação era programada há mais de um ano, então por que o resultado é o que se viu?

A realidade dos números e o peso do submundo invisível

Conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, o Brasil registrou 44.127 mortes violentas intencionais em 2024, com taxa de 20,8 por 100 mil habitantes.

No ranking dos estados, o Rio figura com taxa de 22,1 por 100 mil. O Tocantins, por sua vez, registrou taxa de 19,8 por 100 mil habitantes. Ou seja: apesar da condição social, territorial e de visibilidade do Rio, ele está pior que muitos estados menos populosos ou menos complexos.

Sobre as mortes por intervenção policial o Anuário informa que entre 2014 e 2024 houve 60.394 mortes por ações de agentes públicos, sendo 6.243 em 2024, o que corresponde a 2,9 por 100 mil habitantes ou cerca de 14 % das mortes violentas intencionais. Esses dados cobrem o país, mas vale perguntar: qual a proporção para o Rio? E qual a eficácia dos gastos em inteligência e prevenção?

Gastos, inteligência e prioridades ambíguas

Proporcionalmente, mesmo com todo o aparato e capital simbólico do Rio, o investimento per capita em segurança pública não foi maior que estados menores, e os valores citados como R$ 920,00 per capita para o Rio em 2024 contra R$ 928,44 para o Tocantins (nesse mesmo ano) ajudam a ilustrar a desproporção entre recursos e resultados.

Os gastos com inteligência no Rio foram da ordem de R$ 15 milhões em 2024, frente a R$ 1,2 bilhão em São Paulo, R$ 50 milhões na Bahia. Se os “cabeças” das organizações criminosas não estão nas favelas, mas em nichos paralelos, exigir investimentos em inteligência, investigação e prevenção social parece obrigatório.

O real inimigo, o Estado paralelo e a quimera do “tira-bandido”

Enquanto a arena pública se acende com acusações entre partidos e gestores, o crime organizado avança, se equipando e se entranhando nas redes sociais, nas milícias, no tráfico, também no “mercado da proteção”. As favelas cariocas viram teatro de duas autoridades terrivelmente distintas. O Estado legal e o Estado paralelo.

Neste contexto, a retórica de “bandido bom é bandido morto” e “atirar primeiro, perguntar depois” revela-se não apenas moralmente problemática, mas estrategicamente falha. Porque se o tiro resolve o sintoma imediato, não elimina a causa. E se a causa está nos cartéis de poder subterrâneo, financiados e protegidos por interesses diversos, então a resposta tem de ser ampla com investigação, bloqueio financeiro, inteligência, políticas sociais, e sobretudo na continuidade institucional.

A falha da continuidade e do planejamento permanente

Executar ações de segurança pública como se fossem projetos eleitorais – com início, pico de visibilidade e fim – é um erro grave. O Estado de direito exige que os programas de segurança sejam programas de Estado, e não de governos. Ou seja, que sobrevivam aos ciclos políticos, aos nomes individuais, às trocas de comando.

Quando vemos números ainda elevados de mortes, embora haja queda nacional, como a queda de 5,4 % nas mortes violentas intencionais em 2024 no Brasil. isso não satisfaz à altura se considerarmos a tragédia local, a perda de vidas, o impacto comunitário.

Apelo ao governo e à sociedade para união além dos palanques

Em vez de transformar o Rio numa peça de confronto ideológico entre esquerda e direita, o chamado deveria ser a unidade entre União, Estado, municípios, sociedade civil, favelas, para mapear com transparência as redes criminosas, chegando a quem financia, quem protege, quem lucra.

Investir em inteligência, dados, investigação para mirar no “cabeça”, não somente bancar o efeito. Inserir políticas sociais preventivas com educação, emprego, infraestrutura nas comunidades mais vulneráveis, que são cenário e vítimas da violência. Criar mecanismos de continuidade institucional entre governos, com orçamento garantido, metas claras, indicadores públicos.

Garantir que vidas humanas contadas, sejam elas de “cidadãos”, ou “suspeitos”, tenham tratamento humano, baseado em direitos, não em espetáculo.

Conclusão

A tragédia no Rio não cabe no roteiro de brigas ideológicas. Ela exige postura de estado, com responsabilidades claras, mas também com ação firme, articulada, planejada. Se governadores se alinham para “dar moral”, que ao menos dediquem essa moral à ação concreta, não aos discursos de entretenimento político. Se o crime prospera no vácuo da ação estatal e no silêncio da vigilância, então que se coloque no centro o que realmente importa, de viver em segurança, como direito fundamental. E que as mortes não continuem sendo número, nem os cadáveres meros adereços de pauta midiática ou bancada parlamentar. Mas de histórias interrompidas, famílias despedaçadas, que demandam reparação e reforma.

Foto: Internet

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