Marilena Chaui oferece uma chave importante para compreender um fenômeno social que continua muito presente no Brasil, que é a contradição de uma classe média que, muitas vezes, deseja se aproximar da classe dominante e, ao mesmo tempo, teme ser confundida com a classe trabalhadora.
É nessa contradição que aparece aquilo que Chaui chama, em sua análise, de “correia de transmissão”. A classe média pode acabar reproduzindo e difundindo valores, discursos e interesses das classes dominantes, fazendo chegar ao cotidiano das pessoas ideias que foram produzidas a partir de interesses que não são necessariamente os seus.
A correia funciona quando alguém acredita que ter um carro importado, uma casa bonita, piscina, área gourmet, um bom salário ou determinado padrão de consumo significa pertencer à elite. Não significa.
Consumir como os ricos não é o mesmo que possuir o poder econômico dos ricos. Ter algum patrimônio não significa controlar os mecanismos que concentram riqueza, renda e poder. E ter uma vida confortável não elimina a condição de quem continua dependendo do próprio trabalho para viver.
Mas essa ilusão não acontece apenas pelo patrimônio ou pelo consumo. Também existe quem construa sua sensação de superioridade pelo título acadêmico que possui, pelo cargo que ocupa, por se autoproclamar “formador de opinião” ou por se apresentar como intelectual.
Ter um diploma não transforma ninguém automaticamente em dono da verdade. Um título acadêmico não confere superioridade moral. E chamar a si mesmo de intelectual ou formador de opinião não significa estar acima das contradições sociais. Conhecimento deveria ampliar nossa capacidade de questionar as estruturas de poder, e não nos transformar em prisioneiros da nossa própria bolha.
E aqui entra algo fundamental, o contraditório. Uma sociedade democrática não pode ser construída apenas ouvindo quem pensa como nós. Precisamos conhecer o argumento do outro, compreender de onde ele vem, quais interesses estão envolvidos e quais experiências sociais produziram determinada visão de mundo.
Isso não significa aceitar tudo como verdadeiro. Significa ter maturidade intelectual para ouvir, questionar, confrontar argumentos e reconhecer que a realidade é muito maior do que o nosso círculo de convivência. É preciso também compreender o que Marx chamou de luta de classes. A existência de interesses econômicos e sociais diferentes e, muitas vezes, conflitantes entre grupos que ocupam posições distintas na estrutura da sociedade.
Ignorar esses conflitos não faz com que eles desapareçam. Pelo contrário. Quando não compreendemos as relações de poder, podemos acabar defendendo interesses que sequer percebemos que não são os nossos.
Por isso, o debate é indispensável. Debater não é brigar. Discordar não é odiar. Ouvir o contraditório não significa abandonar nossas convicções. Significa submetê-las à reflexão. O problema começa quando cada grupo constrói sua própria bolha, escolhe apenas as informações que confirmam aquilo em que já acredita e passa a considerar ignorante, inimigo ou inferior todo aquele que pensa diferente.
Aí deixamos de buscar compreensão e passamos apenas a buscar confirmação. E uma sociedade que só ouve a si mesma perde a capacidade de compreender a sociedade como um todo. Precisamos sair das nossas bolhas, sejam ideológicas, políticas, sociais, econômicas, acadêmicas e até religiosas, e tentar compreender o Brasil para além daquilo que aparece no nosso próprio círculo.
Porque quem conhece somente a própria versão da realidade conhece apenas uma parte dela. Aquestão não é demonizar a classe média. É compreender o mecanismo social. Uma sociedade profundamente desigual não se sustenta apenas pela força econômica de quem está no topo. Ela também se reproduz quando determinados grupos passam a acreditar que seus interesses estão necessariamente alinhados aos interesses daqueles que concentram riqueza e poder.
Por isso, a pergunta deveria ser menos sobre “quanto eu tenho?”, “qual título eu possuo?” ou “quantas pessoas me ouvem?” e muito mais sobre “Qual posição eu ocupo nessa estrutura, quais interesses estou ajudando a defender e o que estou deixando de enxergar porque permaneço dentro da minha própria bolha?”
Talvez essa seja uma das provocações mais importantes da análise de Marilena Chaui. O conhecimento não deveria nos afastar da realidade social. Deveria nos dar instrumentos para compreendê-la melhor. E o contraditório não deveria ser nosso inimigo. Deveria ser uma ferramenta para ampliar nossa compreensão.
Porque, quando a correia de transmissão volta a funcionar, a elite não precisa falar. Ela encontra quem fale por ela. E talvez o primeiro passo para interromper essa correia seja justamente aprender a pensar, ouvir, questionar e compreender para além da nossa própria bolha.
Professor Gilberto Correia da Silva – Presidente da Apug-Ssind