Atentado contra professora da UnirG marca o Dia do Professor e expõe a gravidade da violência no ambiente acadêmico e fora dele

Residência e clínica da professora Fabiana Cândida de Queiróz Santos Anjos foram alvos de disparos. APUG-SSind presta assistência à docente e solicita à Universidade a abertura de procedimento administrativo contra acadêmico autor dos disparos.

O Dia do Professor, celebrado nesta quinta-feira (15), foi marcado por um episódio de extrema violência contra a professora Fabiana Cândida de Queiróz Santos Anjos, docente do curso de Medicina da Universidade de Gurupi (UnirG) e sindicalizada da Associação dos Professores Universitários de Gurupi – APUG-SSind. Na madrugada de quarta-feira (14), a residência da professora, conjugada ao consultório/clínica, foi alvo de disparos de arma de fogo que atingiram a fachada do imóvel, portas e janelas de vidro, muro, portões da garagem e três veículos estacionados no local.

Conforme informações constantes no auto de prisão, o acadêmico de Medicina Pedro Campelo Cabral confessou ser o autor dos disparos. Ele e seu irmão, o médico José Aristides Campelo Cabral, foram presos em flagrante e autuados por tentativa de homicídio, segundo os registros da ocorrência.

Após a audiência de custódia, deverá ser avaliada a solicitação de prisão preventiva dos irmãos, conforme as informações disponíveis sobre o andamento do caso. A eventual decretação da prisão preventiva depende de decisão judicial e o caso corre em segredo de justiça.

De acordo com as informações constantes nos autos e os registros dos sistemas de monitoramento, dois veículos se aproximaram da residência da professora. Seus ocupantes teriam acionado o interfone ou a campainha. Na sequência, outro veículo chegou ao local, de onde foram efetuados os disparos.

Os registros mencionados nos autos apontam entre 15 e 21 disparos, que atingiram diferentes partes do imóvel, incluindo a fachada da clínica, portas, janelas de vidro, muro e portões da garagem, além de três veículos estacionados na propriedade.

A tragédia poderia ter sido ainda maior. No interior da residência estavam a professora Fabiana e seus três filhos. Nenhum deles foi atingido, evitando-se consequências ainda mais graves.

O ataque colocou em risco a vida da docente e de seus familiares, além de atingir o espaço onde ela desenvolve suas atividades profissionais. O episódio evidencia a gravidade da violência e as consequências que poderiam ter resultado de uma ação dessa natureza em um ambiente residencial ocupado.

Reprovações seriam possíveis motivações

Uma das hipóteses investigadas diz respeito à relação acadêmica entre a professora e Pedro Campelo Cabral. Segundo as informações apresentadas sobre o caso, o estudante teria sido reprovado por duas vezes na disciplina Saúde da Mulher I, ministrada pela docente, e enfrentava a possibilidade de nova reprovação no semestre em andamento, em razão de seu desempenho acadêmico.

A possível relação entre as avaliações acadêmicas e o atentado deverá ser esclarecida no curso das investigações. A motivação do crime precisa ser estabelecida pelas autoridades responsáveis, a partir dos elementos reunidos na apuração.

O caso, entretanto, suscita uma reflexão incontornável sobre a autonomia docente e os limites éticos que devem orientar a vida universitária. A avaliação acadêmica faz parte das responsabilidades do professor, e eventuais discordâncias precisam ser resolvidas pelos canais institucionais e legais. Nenhuma insatisfação com notas, reprovações ou decisões pedagógicas pode justificar ameaças ou violência contra educadores.

Pedido de medida protetiva

Diante da gravidade dos acontecimentos, Fabiana informou que já solicitou medida protetiva em relação aos dois irmãos, especialmente em relação ao acadêmico apontado como autor dos disparos.

A iniciativa busca resguardar a integridade da professora diante das circunstâncias do ataque. A concessão e as condições da medida dependem de apreciação pelas autoridades competentes.

A docente também providenciou laudo pericial para avaliação dos danos materiais causados à residência e à clínica. Segundo estimativa da própria professora, os prejuízos ultrapassam R$ 30 mil. O levantamento técnico deverá contribuir para a documentação dos danos e para as providências legais cabíveis.

Além dos prejuízos financeiros, o episódio deixa consequências emocionais para a professora e seus familiares, que foram submetidos a uma situação de extremo risco dentro da própria residência.

Reitoria confirma procedimento administrativo

A Universidade de Gurupi informou que já instaurou procedimento administrativo para apurar o caso no âmbito institucional. A informação foi confirmada pela reitora Jaqueline Ribeiro, demonstrando que a ocorrência também passou a ser examinada sob a perspectiva das normas e responsabilidades acadêmicas.

A providência ocorre em paralelo à investigação criminal e às medidas de assistência à professora. O procedimento administrativo deverá examinar os fatos e avaliar as providências cabíveis no âmbito da instituição, respeitando as normas aplicáveis, o contraditório e a ampla defesa.

A APUG-SSind, entidade à qual Fabiana é sindicalizada, também vai protocolar requerimento administrativo solicitando a apuração da conduta do acadêmico e a avaliação das medidas disciplinares pertinentes, incluindo eventual desligamento da Universidade.

A instauração do procedimento administrativo não substitui a investigação policial nem a responsabilização criminal, que competem às autoridades responsáveis. São esferas distintas, com finalidades e procedimentos próprios.

APUG-SSIND presta assistência e manifesta repúdio

Desde que tomou conhecimento do atentado, a APUG-SSind prestou assistência jurídica e assistencial à professora Fabiana, além de emitir nota pública de repúdio e solidariedade.

A entidade sindical acompanha o caso e cobra providências diante da gravidade dos fatos. Para a representação dos docentes, a situação reforça a necessidade de garantir condições de segurança para o exercício da profissão e de assegurar que conflitos relacionados à atividade acadêmica sejam tratados pelos meios institucionais adequados.

A Reitoria da UnirG também divulgou manifestação de repúdio e solidariedade à docente. Com a confirmação da abertura do procedimento administrativo, a Universidade passa a apurar formalmente o episódio no âmbito institucional.

A comunidade universitária espera que as circunstâncias do ataque sejam devidamente esclarecidas, que a professora receba o apoio necessário e que as providências legais e administrativas sejam adotadas conforme os resultados das apurações.

Mesmo abalada, professora ministrou aulas no Dia do Professor

Mesmo diante do abalo emocional provocado pelo atentado, Fabiana compareceu à Universidade nesta quinta-feira (15) e ministrou aulas durante todo o dia. A circunstância torna ainda mais simbólica a data em que se celebra o trabalho dos educadores brasileiros.

Enquanto escolas e universidades prestam homenagens aos professores, uma docente precisa lidar com o trauma de ver sua residência e seu local de trabalho atingidos por disparos de arma de fogo, além da preocupação com a segurança de seus três filhos.

Sua presença em sala de aula demonstra compromisso com a profissão, mas não deve ser interpretada como sinal de que o sofrimento pode ser ignorado ou de que cabe à vítima suportar sozinha as consequências da violência.

O episódio exige acolhimento, proteção e medidas concretas para que os professores possam exercer suas atividades sem medo de ameaças ou agressões.

Afinal há o que comemorar no Dia do Professor?

O caso de Fabiana impõe uma reflexão que vai além das homenagens tradicionais do 15 de outubro. De que vale celebrar o Dia do Professor com discursos, flores e mensagens de reconhecimento se profissionais da educação podem se tornar alvos de violência no exercício de suas funções?

Ensinar, orientar e avaliar fazem parte da responsabilidade docente. A formação de profissionais exige critérios acadêmicos, compromisso ético e respeito às normas institucionais. Quando há discordância sobre uma avaliação, existem mecanismos para solicitar revisão, apresentar recursos e buscar soluções administrativas ou judiciais. A violência jamais pode ocupar o lugar do diálogo e da Justiça.

Neste Dia do Professor, Fabiana merece mais do que manifestações de solidariedade. Merece acolhimento, proteção e condições para continuar exercendo sua profissão com segurança. Seus filhos merecem viver sem o temor de que a violência volte a ameaçar o lar da família.

A comunidade universitária também precisa refletir sobre a prevenção de situações semelhantes, os protocolos de segurança e a proteção dos docentes diante de ameaças relacionadas ao exercício de suas funções.

O Dia do Professor deveria ser uma celebração da educação, do conhecimento e da transformação social. Diante de um atentado dessa gravidade, a pergunta que fica é inevitável, se há realmente o que comemorar quando uma professora tem a casa e a clínica atingidas por disparos e, mesmo abalada, precisa encontrar forças para entrar em sala de aula no dia seguinte?

Vale reforçar que não é caso isolado, considerando a divulgação de vários casos de assédio, agressões físicas, estrupos e mortes em várias cidades do Tocantins e do Brasil. Valorizar o professor não é apenas homenageá-lo uma vez por ano. É respeitar sua dignidade, proteger sua integridade e garantir que possa ensinar sem medo e voltar para casa em segurança.

Mais do que homenagens, os educadores precisam de respeito, reconhecimento e proteção efetiva. O caso de Fabiana não deve ser tratado como um episódio isolado a ser esquecido após as manifestações de solidariedade. Deve servir de alerta para toda a sociedade sobre a necessidade de enfrentar a violência e preservar a segurança daqueles que dedicam suas vidas à formação de outras pessoas.

NOTA APUG

Um comentário em “Atentado contra professora da UnirG marca o Dia do Professor e expõe a gravidade da violência no ambiente acadêmico e fora dele”

  1. O Dia do Professor de 2026 ficará marcado por uma página triste e perigosa para a educação: o atentado à tiros contra a residência da professora Fabiana Cândida (UnirG), que colocou em risco a vida dela e de seus filhos por causa de reprovações acadêmicas.
    Manifestuo meu mais profundo repúdio a esse ato covarde praticado por alunos. A sala de aula e a avaliação docente exigem autonomia ética e respeito. Nenhuma insatisfação com notas justifica ameaças, muito menos uma tentativa de execução. Que os responsáveis paguem rigorosamente perante a lei e sofram as devidas sanções acadêmicas. Força à professora Fabiana!

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