Regional Planalto do ANDES-SN e seções sindicais conhecem realidade Akwẽ Xerente e discutem os desafios da educação indígena e o papel da universidade pública

A gente precisa aprender mais com a cultura indígena”: visita à Aldeia Akwẽ Xerente Karehu provoca reflexão sobre educação, universidade e construção de outro mundo

Por Gilberto Correia da Silva

O que pode o movimento sindical aprender com os povos indígenas?

A pergunta, que poderia parecer distante das pautas tradicionais do sindicalismo docente, ganhou concretude durante a visita técnica realizada pela Diretoria Regional Planalto do ANDES-SN e representantes de seções sindicais à Aldeia Akwẽ Xerente Karehu, no município de Tocantínia.

Mais do que uma visita institucional, o encontro se transformou em um momento de escuta, diálogo e reflexão sobre educação, universidade pública, docência, cultura, território e diferentes formas de compreender e construir a vida em sociedade.

A atividade integrou a programação do encontro da Regional Planalto e aproximou professores e dirigentes sindicais de uma realidade que, embora muitas vezes, esteja fora dos espaços tradicionais de discussão do movimento docente, mantém uma relação cada vez mais estreita com a universidade pública.

A Aldeia Akwẽ Xerente Karehu está localizada a aproximadamente 13 quilômetros de Miracema do Tocantins pelo trajeto que inclui a travessia de balsa sobre o Rio Tocantins. Por acesso rodoviário, sem a necessidade da travessia, são aproximadamente 40 quilômetros. Uma universidade que chega às aldeias. E uma aldeia que chega à universidade.

Professora Luciane Silva de Souza, da UFT Miracema

Durante a visita, a professora Luciane Silva de Souza apresentou aos participantes visitantes, experiências e resultados da formação acadêmica indígena, mostrando como a universidade pública vem desempenhando papel importante na formação de professores, pesquisadores e profissionais pertencentes aos povos originários. “Já são dois doutores formados e 14 mestres, e atualmente 44 acadêmicos indígenas frequentam o curso de Pedagogia Intercultural Indígena”, relatou.

O número de estudantes indígenas em Miracema, entretanto, é ainda mais expressivo. Conforme relatado durante o encontro, mais de 180 acadêmicos indígenas estão atualmente distribuídos pelos diferentes cursos da universidade.

A formação não se limita à Pedagogia. Há também indígenas cursando Serviço Social e outras áreas, ampliando a presença dos povos originários no ensino superior. Essa presença representa uma mudança importante na relação entre universidade e comunidades indígenas.

Não se trata apenas de levar conhecimento acadêmico para os territórios indígenas. A universidade também passa a receber conhecimentos, experiências, culturas e modos de vida que, historicamente foram marginalizados ou tratados como inferiores pelo modelo dominante de produção do conhecimento. É um movimento de mão dupla. A universidade chega à aldeia, mas a aldeia também chega à universidade.

Da Aldeia Funil ao doutorado

Um dos exemplos dessa transformação é a trajetória de Gustavo Kanõkra, do povo Xerente, da Aldeia Funil. Egresso da UFT de Porto Nacional, Gustavo concluiu a graduação e o mestrado em Letras e atualmente cursa o doutorado, também em Porto Nacional.

Gustavo Kanõkra, doutorando em Linguística, em Porto Nacional

Sua trajetória é representativa de uma nova realidade, com indígenas ocupando não apenas as salas de aula da universidade, mas também os espaços da pesquisa, da docência e da produção acadêmica.

O percurso de Gustavo demonstra que a educação superior pode ser instrumento de fortalecimento da autonomia e da identidade dos povos originários, formando profissionais que também passam a produzir conhecimento a partir de suas próprias experiências, culturas e territórios.

“Se a gente quiser aprender e sobreviver, precisa aprender com a cultura indígena”

Foi justamente essa relação entre conhecimento, sociedade e modos de vida que provocou uma das principais reflexões da visita. A professora Camila Aparecida de Campos, da UFT de Catalão e diretora da Regional Planalto do ANDES-SN, lembrou uma reflexão atribuída ao sociólogo Ricardo Antunes para defender que, mesmo diante de uma postura crítica em relação ao capitalismo, é preciso olhar para os povos indígenas quando se busca imaginar alternativas para o futuro.

Professora da UFCAT e 1ª Tesoureira da Regional Planalto, Camila Campos

“Em uma fala de Ricardo Antunes, por mais críticos que sejamos do capitalismo, se a gente quiser perceber o caminho possível, a gente tem que olhar para o povo indígena.”

A afirmação ganha ainda mais força quando dirigida ao próprio movimento sindical. Camila reconheceu que sindicatos e outras instituições podem acabar se distanciando das realidades concretas vividas pelas comunidades.

“É muito comum a gente ser atacado como distante da realidade indígena, por estarmos muitas vezes dentro dos aparelhos dos sindicatos, do Estado. Mas, se a gente quiser aprender e sobreviver, quiser construir um outro mundo, a gente precisa aprender mais com a cultura indígena e ter a humildade de reconhecer isso”, afirmou a docente.

A fala coloca uma questão incômoda, mas necessária. Ser crítico ao modelo social existente não significa, necessariamente, saber como construir uma alternativa a ele. Para Camila, esse processo exige também coragem e ousadia, “e, ao mesmo tempo, pavimentar essa coragem e ousadia para a construção desse outro mundo”, declarou.

O que a educação do campo ensina ao movimento docente?

Professora da área de educação do campo, Camila também relacionou a experiência vivenciada na aldeia aos desafios enfrentados por comunidades que constroem processos educativos fora dos modelos convencionais.

“Além de professora e sindicalista, sou professora da área da educação no campo e a gente sabe dos desafios. Não sabemos de todos, óbvio, mas de uma pequena parte, na verdade”, ressaltou.

A partir das reflexões do educador Carlos Rodrigues Brandão sobre as diferentes formas de educação, a professora e dirigente sindical chamou atenção para uma questão ainda mais profunda, que é a maneira como os seres humanos aprendem e se relacionam com o mundo, ao declarar “Como a gente aprende a perceber que a forma destrutiva como nos relacionamos com o mundo também acaba reproduzindo relações destrutivas entre nós?”.”

A reflexão ultrapassa, portanto, os limites da educação formal. Questiona o modelo de sociedade, a maneira como o ser humano se relaciona com a natureza e, consequentemente, como estabelece relações com os próprios semelhantes.

A universidade pública precisa ouvir

A experiência vivenciada na Aldeia Akwẽ Xerente Karehu também lança luz sobre o papel da universidade pública. Uma universidade socialmente referenciada não pode ser apenas aquela que produz conhecimento sobre os povos indígenas. Precisa ser também aquela que produz conhecimento com eles.

Precisa reconhecer seus saberes, suas culturas, suas experiências e suas formas próprias de compreender o mundo. E precisa garantir que indígenas possam ocupar cada vez mais os espaços de graduação, pós-graduação, pesquisa e docência.

Os números apresentados durante a visita: dois doutores, 14 mestres, 44 acadêmicos na Pedagogia Intercultural Indígena e mais de 180 estudantes indígenas nos cursos em Miracema, mostram que esse processo já está acontecendo. Mas também mostram que ainda há muito a construir.

Uma visita que também foi um encontro de culturas

Antes do encerramento da atividade, os participantes compartilharam um momento de convivência com a comunidade e tiveram a oportunidade de experimentar um prato típico: o paparuto (Hârkbu), preparado com massa de mandioca recheada com peixe e assada ao forno. O alimento, servido aos visitantes, tornou-se parte de um encontro que foi muito além da agenda institucional.

Paparuto (Hârkbu), assado de massa de mandioca recheado com peixe

Houve conversa, escuta, troca de experiências e contato com uma cultura que, apesar de historicamente sofrer com a marginalização e diferentes formas de violência, preserva conhecimentos e modos de vida que podem oferecer importantes ensinamentos para toda a sociedade.

Mais do que visitar, é preciso aprender

A passagem da Regional Planalto do ANDES-SN pela Aldeia Akwẽ Xerente Karehu deixa uma provocação que merece permanecer para além do encontro sindical. O movimento docente quer transformar a sociedade. Mas está disposto a ouvir quem há séculos sobrevive, resiste e constrói sua existência em outras bases?

A pergunta colocada por Camila Campos talvez seja uma das maiores contribuições da visita. Não basta falar em transformação social, defesa da educação pública, combate às desigualdades e construção de uma nova sociedade se continuarmos olhando apenas para nossas próprias estruturas e referências.

Talvez seja necessário sair dos prédios, das salas de reunião, dos sindicatos e das universidades. Ir até os territórios. Ouvir. Observar. Reconhecer. E, sobretudo, ter humildade para aprender.

Porque, como sintetizou a professora Camila, se queremos “aprender e sobreviver” e construir “um outro mundo”, talvez seja necessário olhar com mais atenção para aqueles que, muito antes de nossas teorias e estruturas institucionais, já aprenderam a resistir, preservar seus territórios, manter sua cultura e estabelecer outras formas de relação com o mundo.

A visita à Aldeia Karehu foi, portanto, também uma visita a uma possibilidade. A de construir uma universidade, um sindicalismo e uma sociedade capazes não apenas de ensinar, mas também de aprender.

Fotos: Colaboração: Janaína (Estudante de Pedagogia UFT – Miracema), Gil (APUG) e Bira (UFNT)

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