Por Lêida Theophilo
Ao atuar como professora de Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) e de Iniciação Musical no 1.º Ciclo do Ensino Básico em Braga deparei-me com salas de aula que são verdadeiros microcosmos do mundo. Tive o privilégio e a surpresa de acompanhar de perto como o espaço escolar se torna infinitamente mais vivo, dinâmico e enriquecedor quando habitado por alunos que trazem sotaques, culturas, vivências e línguas profundamente diversas.
Na rotina diária em Portugal, trabalhei com crianças vindas das mais distintas realidades geopolíticas e culturais: alunos da Colômbia, Croácia, Angola, Afeganistão e Ucrânia, além de crianças da comunidade cigana, com a sua riquíssima tradição étnica e cultural.
Estar diante dessa pluralidade me fez refletir sobre as razões profundas que trouxeram essas famílias até a nossa escola pública. Muitas dessas crianças chegaram marcadas pelo trauma da guerra e da destruição (como nos casos recentes da Ucrânia), pela fuga ao radicalismo religioso e à privação de direitos fundamentais (como no Afeganistão), ou pela busca de refúgio frente à pobreza extrema, à instabilidade social e à fome.
Ver meninos e meninas que carregam histórias tão severas encontrarem na sala de aula um porto seguro — onde conseguem brincar, comunicar, criar laços e aprender juntos — mudou para sempre a minha visão sobre o ato de ensinar. A sala de aula deixou de ser apenas um lugar de transmissão de conteúdos para se tornar um espaço humanitário de acolhimento e reconstrução através do afeto.
Historicamente, a rotina escolar pública tende a fragmentar os saberes. A matemática vive isolada no seu horário; as ciências surgem como um bloco de conceitos teóricos; a geografia e a história raramente conversam entre si, e a literatura costuma ser reduzida a uma “ficha de leitura” no tempo da língua portuguesa. Embora a interdisciplinaridade seja um pilar amplamente defendido na teoria pedagógica e nas diretrizes curriculares (como a BNCC no Brasil), a sua aplicação prática na escola pública ainda é um enorme desafio. Falta, muitas vezes, um elemento catalisador — um fio condutor que dê sentido e conexão a essas diferentes áreas do conhecimento.
O Despertar para as Ciências: A Inspiração de A Linguagem da Amizade
Foi justamente ao observar o fascínio e a curiosidade das crianças diante da diversidade cultural — e a necessidade urgente de criar pontes entre elas — que despertei para o desejo de escrever o livro infantil “A Linguagem da Amizade” (em breve lançamento) e enxergá-lo não apenas como uma obra literária, mas como uma ferramenta pedagógica interdisciplinar.
A história acompanha Francisco, um menino de 9 anos que vive em Braga e tem uma família multicultural. Ao viajar para o Brasil — onde vivencia a cultura do povo indígena Ianomâmi na Amazônia — e para Guiné-Bissau — onde se depara com a colheita do caju e o idioma crioulo —, Francisco descobre que os afetos, os desenhos, a música e o olhar superam qualquer barreira linguística.
Para apoiar os professores no desafio de integrar os conteúdos, a obra é acompanhada por um Encarte Pedagógico Exclusivo. O objetivo desse material é permitir que o educador utilize uma única narrativa como eixo central para trabalhar diversas áreas do saber:
- Língua Portuguesa: Analisando a tradição oral das lendas ancestrais, os diálogos e a criação de dicionários ilustrados.
- Matemática: Transformando a medição do “colar da amizade”, as formas geométricas das malocas e o tempo de viagem entre continentes em problemas práticos e contextualizados.
- Ciências Naturais: Explorando o ciclo das sementes, o valor nutricional da vitamina C do caju, a preservação dos biomas e as cadeias alimentares da Amazônia.
- Geografia: Mapeando fusos horários, reconhecendo paisagens e compreendendo os fluxos migratórios globais.
- História: Discutindo a organização comunitária, o patrimônio imaterial das línguas (Ianomâmi e Crioulo) e o respeito às diferenças culturais.
Da Recepção Passiva à Investigação-Ação
A minha experiência e a investigação em torno do ensino mostraram-me que o aluno não deve ser um mero receptor passivo de conteúdos divididos em caixas estanques. Quando colocamos a criança no centro do processo — estimulando a sua veia investigativa por meio de histórias que conectam o saber científico à vida real —, a qualidade do ensino dá um salto qualitativo, mesmo diante da escassez de recursos de muitas escolas.
Testemunhar o brilho nos olhos de um aluno refugiado ou migrante ao descobrir que a sua língua, o seu país, a sua etnia e a sua história têm espaço e valor na aula renovou o meu propósito docente. A pluralidade deixa de ser um desafio abstrato e passa a ser a nossa maior aliada pedagógica.
Considerações Finais
Superar a pouca articulação entre as ciências nas escolas públicas exige dos educadores coragem e sensibilidade para inovar. “A Linguagem da Amizade” nasce dessa vontade de demonstrar que uma narrativa simples e afetuosa, combinada a um direcionamento pedagógico prático, pode transformar a sala de aula num verdadeiro laboratório de saberes integrado e num refúgio de paz.
Aprender sobre o mundo, a natureza e as pessoas não é um processo dividido por matérias; é uma aventura contínua. Vivenciar a riqueza de uma sala de aula multicultural me provou que, quando estendemos os fios que conectam o conhecimento, oferecemos às nossas crianças as ferramentas para que leiam o mundo de forma crítica, empática e verdadeiramente humana.
Estamos sempre juntos. Leida é totalmente para ocupar o cargo que pleiteia nestas eleições.