Em meio às discussões sobre a recomposição salarial dos servidores municipais de Gurupi, especialmente dos administrativos e docentes da UnirG, cresce o sentimento de revolta e descrença diante da postura adotada por vereadores da base governista na Câmara Municipal.
A principal crítica gira em torno da aprovação de um índice de recomposição salarial de 3,89%, percentual abaixo da inflação oficial medida pelo IPCA do IBGE, que fechou o período de janeiro a dezembro de 2025 em 4,26%. Para muitos servidores, a diferença representa perda real de poder de compra e mais um episódio de desvalorização do funcionalismo público municipal.
No caso dos servidores da administração direta, a situação é considerada ainda mais grave. Isso porque a data-base da categoria ocorre no mês de maio e, segundo representantes dos trabalhadores, a gestão municipal teria utilizado apenas o período de 10 meses para calcular a recomposição, deixando de considerar os 12 meses completos entre maio de 2025 e abril de 2026. Dessa forma, o percentual correto da recomposição deveria alcançar 4,53%, e não os 3,89% aprovados pela Câmara.
O que mais causa indignação, segundo lideranças e trabalhadores, é o fato de vereadores que são servidores concursados do próprio município defenderem publicamente a proposta da gestão e ainda tentarem apresentar o índice inferior à inflação como uma “grande vitória” para a categoria.
A situação se tornou ainda mais polêmica após a convocação de servidores a UnirG, por parte do servidor de carreira, investido na função de vereador, para lotarem o auditório da Câmara Municipal durante a votação do projeto, em um ambiente que, segundo críticos, teria servido mais para aplausos políticos e blindagem da gestão do que para um debate legítimo em defesa dos direitos dos trabalhadores.
Para parte do funcionalismo, a postura de determinados parlamentares evidencia uma inversão completa do papel constitucional do vereador, que deveria legislar e fiscalizar o Executivo, e não atuar como extensão política da Prefeitura.
Outro ponto duramente criticado pelas categorias é a ausência de diálogo institucional por parte da gestão municipal. Representantes sindicais e lideranças afirmam que a prefeita sequer recebeu oficialmente as categorias para discutir ou negociar as propostas de recomposição salarial. Para os servidores, a condução da relação entre Executivo e funcionalismo tem ocorrido de maneira personalista, fechando espaço para o contraditório, para o debate democrático e para a construção republicana de soluções.
A crítica se amplia diante da percepção de que determinados setores possuem acesso privilegiado à gestão, enquanto os legítimos representantes dos servidores municipais são ignorados nas discussões que impactam diretamente suas carreiras e condições de trabalho.
No caso da UnirG, a preocupação é ainda maior. A instituição, regida por legislação especial, possui relevância histórica e regional por ser a única universidade pública municipal da Região Norte do Brasil. Ainda assim, segundo docentes e técnicos administrativos, a universidade vem sendo marcada por ingerência política, desvalorização institucional e ausência de diálogo efetivo com suas categorias.
Servidores afirmam que o discurso de “gestão humanizada”, amplamente utilizado desde o primeiro mandato da atual gestora municipal, não se reflete na prática administrativa. Para muitos, o tratamento dispensado à universidade representa um paradoxo ainda mais simbólico diante da história da própria instituição, fundada pelo pai da atual prefeita.
Nos bastidores políticos de Gurupi, comenta-se abertamente que vereadores da base aliada possuem influência na indicação de dezenas de cargos comissionados na estrutura da administração municipal. Para críticos da gestão, essa relação política ajuda a explicar o comportamento de parlamentares que, mesmo sendo servidores efetivos, acabam votando sistematicamente contra os interesses das categorias.
Agora, novas preocupações surgem diante das possíveis alterações nos planos de carreira dos servidores e docentes da UnirG. O temor é de que direitos históricos sejam reduzidos sob o argumento de “reorganização administrativa”, repetindo o roteiro já visto em outras matérias aprovadas pela base governista.
Nesse cenário, cresce a percepção de desgaste da credibilidade do Legislativo gurupiense. Para muitos servidores, os vereadores que se apresentam como defensores do funcionalismo acabam agindo como verdadeiros carrascos da categoria ao apoiar medidas que reduzem garantias, enfraquecem carreiras e ampliam perdas salariais.
A Câmara de Gurupi tem 17 vereadores, sendo 13 da base aliada da prefeita. Entre os servidores públicos de carreira, que exercem mandato de vereadores, com apoio total a todos os projetos enviados pelo Executivo Municipal, estão os vereadores Walter Coelho, Célia Lima e Débora Ribeiro, que só não votou por estar ausente da votação na semana passada. Também são servidores públicos efetivos, mas votaram contra o projeto os vereadores, André Caixeta e Mário Cesar. O vereador Ivanilson Marinho, que é da base da prefeita, só não votou na matéria, por ser o atual presidente do Legislativo e só votaria em caso de desempate
A crise de confiança entre servidores e parte da Câmara Municipal parece se aprofundar a cada votação. E, diante desse cenário, uma pergunta ecoa entre Trabalhadores públicos de Gurupi, sobre quem, de fato, está defendendo os interesses do servidor municipal?


Gilberto Silva – Jornalista, professor aposentado e presidente da Apug-Ssind